Texto: Regina Sinibaldi
Fotos: IM
 
Contardo Calligaris, psicanalista e colunista do jornal Folha de S.Paulo, foi fotógrafo na juventude. Como gostava de viajar, aproveitava para fazer slides e vendê-los a uma editora de enciclopédias na Itália. Um de seus roteiros foi a Índia e Nepal, na década de 60. Início do rock ‘n’ roll e dos movimentos de contracultura, lá estava Contardo, com uma vasta cabeleira, ávido por conhecer a cultura local. “Sou um viajante pouco ou nada fóbico, me banhei no Ganges e até tomei sua água”, conta ele. Coragem à parte, já que o rio apresenta sérios problemas de contaminação, foi ali que Contardo teve uma revelação.

Enquanto observava a cremação dos corpos à beira do rio e sentia o forte cheiro de carne queimada, um menino corria a seu encontro, gritando: “You can’t take picture, Mr.; you can’t take picture”. Perto de Contardo estava um mendigo sentado no chão, frente a um braseiro. Esquentava sua tigela e com o fundo dela, vermelho, cauterizava uma ferida na barriga. “Fazia barulho de fritura. O cheiro era daí. E quando o menino disse que pagando dez rupias eu podia tirar foto, aí parei de fotografar. Voltei a Milão e entrei na faculdade.”

Dos tempos de ampliar em preto-e-branco suas próprias fotos, fazer fotografia de viagem, moda e publicidade, Contardo tem uma série de lembranças que aparecem pontuando os tempos atuais. A seguir, algumas opiniões sobre a fotografia digital.
 
Lembranças
“Na infância viajava com meus pais todas as férias e quem tirava as fotos era minha mãe. Quando a gente voltava, tinha a sessão de tortura para ver as fotos. Sentar, montar o projetor e vê-las. Todo mundo tinha que olhar. Quando meus pais morreram, ficou um armário de caixas com slides. O que fazer? A questão foi resolvida porque 2/3 estavam danificados.”

Preto-e-branco
“Quando eu fazia fotografia em preto-e-branco havia uma riqueza de produtos, de químicos.”



Digital
“A fotodigital mudou a história do álbum de maneira curiosa. Porque é extremamente barata, o que autoriza qualquer um a fotografar, não tem por que se privar dela. A sessão de tortura foi substituída pelo spam fotográfico que torna sua difusão mais fácil. Mas há a ilusão do armazenamento infinito e o fim da mais seleção.”

Insumos
“Não sei quantas pessoas colocam as fotos no papel, mas isso é caro: papel, cartucho e mesmo mandando para um laboratório. A lógica da fotodigital é fotografar qualquer coisa. Quando comecei a fotografar existiam dois tipos de fotógrafo: aquele que passa um tempão até chegar àquela foto e o que ‘metralha’ durante horas para alguma coisa se salvar. Eu ficava entre os dois. Avedon fotografava pouco, usava poucos fotogramas.”

Força da imagem
“Estava pensando na força da imagem. Aquela bomba em Sarajevo e tinha uma equipe da CNN no local, por acaso. Não tem palavra para o tipo de efeito que produz na consciência. Foi um filme praticamente em tempo real e teve um efeito mundial.”

Jornais
“A Internet deu um corte de 35% nos diários em todo o mundo, mas parou. Tem uma função o papel. Você não é imobilizado pelo papel. Suporte em papel não vai acabar tão cedo. Veja que o livro eletrônico não deu certo. Acho que não vai acabar nunca a foto em papel.”

Imagem
“Acho que qualquer um gosta de ter relação com a imagem, para construir a história da gente.”

Nonsense
“Gente fotografando escondido a Monalisa, quando a loja do museu vende o postal e a foto é profissional.”

Fotos na caixa
“As pessoas deixam as fotos em caixas e depois vêm a sensação de culpa.”

Pose
“Na hora em que se tira a foto, muda algo na experiência do mundo. Aquela coisa: vamos sorrir ou fazer algo cretino na pose. Isso muda a condição da experiência do momento.”

Álbum
“O álbum de família é geralmente feito para o filho.”

Câmera
“Tem digital com espessura de um maço de cigarros. Você pode carregar para qualquer lugar. É simpático.”

 
 
Nas lentes do psicanalista Contardo Calligaris
» Série Encontros.02
 
 
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