Texto: Regina
Sinibaldi
Fotos: Marcelo Célio
Uma relação
delicada, muitas vezes cheia de
desencontros e conflitos. De um
lado do balcão o fotógrafo
ansioso pelo resultado de suas ordens
de serviços; à frente
o laboratorista tentando decifrar
e executar tudo o que foi pedido
e, de preferência, o mais
rápido possível e
sem refação. Será
que é possível uma
relação mais harmônica
em que ambas as partes saiam satisfeitas
e que a experiência de cada
um contribua para aprimorar processos?
Afinal, o destinatário final
está distante e alheio a
essas contendas. O seu desejo é
ter uma foto linda.
FHOXSP
promoveu o bate-papo entre
a fotógrafa de casamento,
e ex-editora de fotografia de Caras,
Nellie Solitrenick,
e Lúcio
Calixto, responsável
pelo laboratório Golden Photo,
em São Paulo. O encontro
aconteceu em 14 de setembro.
FHOXSP:
O
minilab digital é o divisor
dos conflitos entre fotógrafo
e laboratório?
Calixto:
Fotógrafo e laboratório
sempre tiveram uma relação
de conflito. Hoje um depende do
outro. Antigamente o laboratório
fazia um padrão que era imposto
ao fotógrafo. Não
acho o minilab digital como um divisor
de conflitos. Vamos dizer que é
um marco porque ampliou os serviços.
Antes eram processos mais lentos
e muito menos precisos. A forma
de controlar era mais difícil.
Por isso era chamado de laboratório
profissional. Hoje qualquer lojinha
pode comprar um minilab digital
e fazer serviço diferenciado.
Mas acho fotografia digital um nicho,
que precisa ser descoberto e explorado.
Nellie: Quero
dar um breve histórico. Comecei
eu mesma revelando e copiando minhas
fotos. Modéstia à
parte, com bastante agilidade. Fazia
cem cópias por hora. Quando
tinha de revelar cor, era mais cromo,
usava a Fotoptica. Então
me atendia uma menina que não
tinha idéia: se eu falava
10 por 15, ela não sabia.
Era o tempo do 9 por 12, sem margem,
com as bordas arredondadas. O 9
por 12 tira muito do negativo. Você
ia falar que cortou o pé,
a cabeça, e não havia
diálogo. Aí comecei
a usar a Foto Futaba, na Teodoro
Sampaio, eu ia tentando... Engraçado:
hoje não vou mais ao laboratório,
só de vez em quando para
tomar café. Tem motoqueiro,
é quase um drive thru. A
gente procura o laboratório
que se adapta ao nosso trabalho,
não é a gente que
tem que se adaptar a ele. Quando
comecei a fazer casamento, passei
por vários laboratórios.
Sentia que tinha de me adaptar a
eles, e não o contrário.
Veja a refação: tem
laboratório que não
faz e, se faz, cobra. Às
vezes é frescura do fotógrafo,
mas na maioria é a maneira
de enxergar a cor da foto.
Calixto:
A repetição
do serviço demora mais do
que a entrada. Tem laboratório
que para repetir a foto demora até
vinte dias. E nessa daí seu
contrato com o cliente está
mais do que estourado. Aí
você vai se aborrecer. Essa
produtividade a gente tenta passar.
Hoje a Golden oferece quatro superfícies
de papel. Abriu um leque na produção.
Antigamente tinham quatro bitolas
de papel, hoje são mais de
dezesseis com uma variedade de superfície,
tem para todo gosto.
Nellie:
E
o pessoal ainda pede 13 por 18,
15 por 21, por falta de conhecimento?
Calixto:
Para digital, 13 por 18 é
interessante porque corta menos.
Nellie:
Por que as pessoas se habituaram
a isso?
Calixto:
Não é só o
corte. O problema também
é o álbum. O fabricante
agora está fazendo um trabalho
interessante, oferecendo álbum
com proporção digital
11,4 por 15,2. Digital é
proporção de monitor.
Feito pela indústria grande
para pequeno. HP, Epson, enfiaram
goela abaixo. Imagine para o próprio
fabricante, Kodak, Fuji, Agfa, que
vinham há anos com bitolas
que já estavam formatadas
no mercado e, de repente, têm
de se adaptar. A gente está
se adaptando a tudo isso.
Nellie:
Esta semana a cliente queria refazer
um álbum em 25 por 30. Falei
que ia cortar, expliquei que a foto
tinha sido numa Hasselblad, quadrada.
Tentei explicar e ela não
entendeu porque cortava.
Calixto:
Isso a gente vive no balcão
diariamente. Proporção
de uma camerazinha digital. O cliente
amador fotografou no fim de semana,
leva o cartão de memória
e tem data na imagem. A gente enquadra,
tira a data e ele quer com ela.
Aí falamos que a cabeça
vai cortar e, para ele tudo bem,
porque ele quer a foto com data.
Nellie:
Mas não pode fazer em papel
maior?
Calixto:
Aí entra aquele esquema:
ou você faz 10 por 15 para
não cortar nada, ou faz a
brincadeira de cropping.
Nellie:
E para os amadores, vocês
editam ainda a imagem?
Calixto:
O atendimento no balcão chega
a vinte minutos, uma hora.
Nellie:
O que vocês podem dar de suporte
para o profissional? Um exemplo:
fiz um casamento e ao dar o CD para
noiva passei tudo para baixa resolução
e não salvei nada. O que
dá para fazer?
Calixto:
É um erro. Teve uma vez que
a gente pensou em fazer as provas
em arquivo menor, porque o processo
fica mais produtivo. Mas pensando
no risco, a gente não fez.
Uma das soluções é
pegar esse arquivo em baixa e tentar
recuperar nessas empresas que fazem
isso. Aí pegar essa imagem
pequena e gerar um negativo digital.
Só que perde qualidade e
a proporção também
cai.
(Nellie volta
ao problema das imagens gravadas
em baixa resolução.)
Nellie:
E agüenta
uma 20 por 25?
Calixto:
Agüenta,
agüenta.
Nellie:
Comprei um livro sobre Photoshop
e lá explica como transformar
3 por 4 em pôster.
Calixto:
Tive essa
experiência. Uma foto 3 por
4 em perfeito estado que a cliente
queria 50 por 60. A 3 por 4 ainda
era aquele papel grosso, trançado.
Nellie: Ah!,
então vou dar uma foto minha
para vocês ampliarem. Uma
das dicas do livro é pegar
a foto e ir fazendo, fazendo, fazendo.
Testei até 15 por 21.
Calixto:
O seu cliente percebe essa evolução
digital?
Nellie:
O que eles querem é o produto
final. Eles não percebem
nada.
Calixto:
Mas no seu preço você
não pode colocar essa evolução
e, no entanto, tem de se atualizar.
Nellie:
Agora já saiu a D5 (Nikon)
que vou comprar, mas não
tem como compensar. São três
mil dólares.
Calixto:
E o nosso, então? O investimento
é muito maior. Só
na máquina é um absurdo.
A gente compra duas máquinas
para atender, ter uma produtividade,
fora o resto, o conceito, o treinamento,
você gasta muito mais.
Nellie:
E precisa de funcionário
capacitado...
Calixto:
Antigamente te falavam: a filha
do Zé precisa de emprego,
é boazinha, honesta, limpinha.
Você ensinava pegar uma 10
por 15. Hoje o custo desta pessoa
é diferente. Você investe
em todo o fluxo. Depois que ela
aprende, vai embora. Você
não pára. Agora está
tudo novo no laboratório.
O funcionário tem sempre
que reaprender. É muito dinâmico.
FHOXSP:
Como
fica o laboratório que tinha
uma bandeira e passa para outra
como o Golden?
Nellie:
Aproveita esta pergunta e emenda
com o cliente profissional.
Calixto:
Desde o começo somos Kodak.
Quatro anos tentamos Fuji e voltamos
para a Kodak. Quando mudamos de
Kodak para Fuji, a clientela era
basicamente amadora. O pessoal perguntava:
mas vai mudar alguma coisa? Percebi
na época que meu volume de
serviço não caía.
O que concluí? Que o pessoal
comprava o nosso serviço
e não a máquina. Principalmente
na revelação eles
confiavam na Golden. No filme eu
pedia para eles experimentarem a
linha Fuji. Eles confiavam no que
a gente vendia. Na mudança
para Fuji foi a única vez
que comprei um Frontier. Quando
voltei para a Kodak não dava
para ficar com a máquina,
porque são processos diferentes.
Tenho um amigo que coleciona máquina:
tem Noritsu, Fuji, Agfa, Copal.
Aí vendi o equipamento e
padronizei com Noritsu, que também
é universal. Preferi não
fazer adaptação.
FHOXSP:
E como é
caligrafia de fotógrafo?
Calixto:
Ainda bem que a gente formatou um
negócio chamado e-mail (risos).
Nellie:
Não, não. Vamos colocar:
é horrível. Tem uma
coisa que eu não posso fazer
no meu estúdio, estou proibida,
é preencher envelope. Eu
troco número. Agora a numeração
é longa, confunde muito.
Calixto:
Isso não é nosso,
parte dos fabricantes de minilabs.
O número gerado pelo escaneamento
é universal, é formato
do software.
Nellie:
Aí a gente tem de pegar todos
esses números e colocar no
computador. Aí eles falam:
“Não, não precisa,
pode colocar à mão,
manda por fax ou pelo motoboy”.
Aí vai a crítica:
chegou lá e digitaram errado.
Calixto:
A gente busca no banco (de dados)
a informação que está
na planilha do Excel. Com certeza
pegaram a planilha e imprimiram,
depois geraram esse número.
Então não é
questão de letra.
Nellie:
Tem um assunto que é interessante.
A gente está fazendo um álbum
e precisa de uma determinada cópia.
Preenche o envelope, bonitinho,
mas antes de seguir coloca mais
informação específica
(corte de tal jeito, etc., etc.)
Aquele envelope que para a gente
é ouro puro, que é
a capa do álbum, vai chegar
ao laboratório e o cara não
vai perceber porque está
fazendo grandes volumes. Falo para
o meu pessoal que a nossa realidade
é totalmente inversa: a gente
é mais um no laboratório.
Calixto:
Apesar de a gente ter a mesma equipe
há mais de quatro anos, do
pessoal conhecer bastante o trabalho
do fotógrafo, sua letra e
a forma de pedir, às vezes
há erros, mas são
internos como o cara fez o corte
errado e a menina do acabamento
não entendeu direito e passou.
Nellie:
Esta semana teve um caso assim:
uma cópia 20 por 23 (uso
uns tamanhos que não existem).
A cópia veio 23 por 20, então
cortou a orelha do cara. Mandaram
de novo. E veio do mesmo jeito.
Aí eu falei, espera aí:
essa foto não é digital?
Então o erro foi nosso. O
corte foi no nosso computador. Era
um retrato de três pessoas,
o 23 era na largura. É comum
esse erro. Era muito óbvio
que estava errado.
Calixto:
Quero deixar uma coisa clara: quando
é saída digital de
arquivo a gente entende que a pessoa
já olhou, manipulou, e a
gente só vai imprimir.