Texto: Mozart Mesquita I Fotos: Márcio Célio

Participam da conversa um dos mais conceituados fotógrafos brasileiros da atualidade, Cássio Vasconcellos, a diretora da Sambaphotos, Juliane Bezerra, e para complementar o debate a presença de Tina Castro, art buyer da Publicis, uma das grandes agências do país. Leia a seguir o resultado do encontro entre três importantes agentes do mercado publicitário brasileiro.

Juliane Bezerra pergunta para Tina: Como funciona a influência do art buyer na decisão do fotógrafo? Na decisão de um banco de imagens? Porque o fotógrafo sempre escuta que deve ser parceiro, mas muitas vezes o trabalho acaba indo para uma pessoa que nunca foi parceira. É um assunto delicado de falar.

Tina Castro – É algo mais complicado, vai do que cada agência faz.

Juliane - Até onde o art buyer influencia?

Tina – O que importa é o relacionamento interno do art buyer com a criação. O mais importante acima de tudo é a sinceridade. Você está lidando com pessoas e com o tempo delas e o próprio desejo de trabalharem na agência. Então quando há um problema, você tem prazo, mas tem que produzir para layout um cliente novo em uma campanha. Você conversa e já resolve com quem gostaria de fazer e conversa com a pessoa pra ver se ela topa. Discute-se o custo, aprovou, faz, veicula ou produz novamente com o fotógrafo escolhido. Se o diretor de arte já vai ligando, o art buyer não tem como fazer por que o diretor de arte tem liberdade para isso. Mas para o diretor de arte, é muito importante ter um relacionamento bom com o art buyer porque existem cobranças. Qualquer layout que for feito, tem custo. O fotógrafo não vai cobrar o clique, o filme e a revelação, mas se tiver um maquiador tem que pagar. É bom que diretor de arte e art buyer estejam em comunhão.

Juliane– Na hora de resolver com quem vai fazer, o art buyer ajuda?

Tina – Primeiro que ele conhece muito bem o eleitorado dele, os diretores de arte, sabe com quem cada um gosta de trabalhar. É fundamental que o diretor de arte tenha afinidade com o fotógrafo na hora de realizar o trabalho. O art buyer ajuda e influência muito na escolha, ele sabe quanto o cliente dispõe para gastar, qual é a mídia, etc. Então, ele pode colocar o pé do diretor de arte no chão com relação ao fotógrafo escolhido e sugerir outro. Hoje em dia há um problema muito grande de custos, tem também que ter um preço acessível no custo/benefício para o cliente. É uma decisão tomada em conjunto com o art buyer e a agência de criação. É muito importante que o fotógrafo esteja motivado para trabalhar, pois isso é o que traz o diferencial, ele tem que estar apaixonado pelo que faz.

Juliane – Você acha que acontece de rolar um layout com um fotógrafo e depois o diretor de arte muda de idéia e resolve fazer a arte final com outro fotógrafo?

Tina – Mas foi prometido que iria ser feito o layout? Acho que tem que ser falado e ver se ele topa fazer o layout.

Mozart – Acho que é importante fazer um parênteses. Tina, gostaria que você descrevesse exatamente a função do art buyer, o seu cotidiano de trabalho?

Tina – O art buyer é um meio de campo entre criação e atendimento e produção também. Ele cuida do atendimento, analisa o layout, conversa com o diretor de arte, indica e seleciona o fotógrafo, faz a reunião de pré produção, orça, passa o orçamento para o atendimento já com todas as informações, avalia também os jovens pra saber quem indicar pois temos milhares de fotógrafos no mercado e tem que saber direcionar o fotógrafo certo para a foto certa. Não só o fotógrafo que tenha o custo certo, mas também o que tem a aptidão certa para aquele layout, que vai trazer mais qualidade e agregar à foto. E ele (art buyer) depois coordena toda a produção e entrega o cromo para finalização. Tem que ter esse jogo de cintura porque os atendimentos estão sempre ansiosos com pressa de mostrar o orçamento. Tem que estar sempre antenado no que está rolando de novo, ter um bom relacionamento com os fotógrafos, estar por dentro de tendências e de tudo que está rolando no mercado para poder trabalhar com a criação. É um trabalho de feeling, de jogo de cintura, pois você fica no meio de criação, atendimento e produção.

Mozart – Você se relaciona com quantos bancos de imagens mais ou menos?

Tina – Uns quatro ou cinco.

Mozart – E no seu cotidiano de trabalho, como é essa pesquisa para novos fotógrafos?

Tina Eu os recebo, sempre que dá vou ao estúdio. Fico também muito ligada em editorial.

Mozart – Deve ser grande consumidora de revistas daqui e de fora?

Tina – Sim, vou sempre à Fnac e à banca da Cidade Jardim e dou uma folheada, infelizmente não dá para comprar tudo.

Mozart – O que os fotógrafos devem estar olhando na sua opinião?

Tina – Vogue francesa, Wall Paper, Dazed and Confused, Simples entre outras. Livros de fotografia, museus, exposições, tem que estar em contato com as pessoas, ir trocando idéias porque as coisas mudam muito.

Cássio Vasconcellos – Qual é o uso do banco de imagens? É usado mais para layout, para campanhas?

Tina – Agência usa muito banco de imagens para layout e para finalizar também. O diretor de arte não gosta muito de utilizar banco de imagens porque ele quer produzir, quer participar da produção. Quer escolher o esquete, quer escolher a locação. Mas banco de imagem é muito interessante, pois às vezes se tem uma imagem na Amazônia ou no Pantanal ou uma paisagem que custaria muito caro produzir, então o banco de imagens ajuda a viabilizar. Para o cliente, o banco de imagens é bom por ser rápido e não ter prazo, dependendo da mídia tem um preço bom. Mas para mídia grande inviabiliza, pois banco de imagem cobra por mídia. Porque se tem ponto-de-venda, jornal, revista, folheto, a foto vira 30, 50 mil. Mesmo negociando, fica caro.

Cássio – Então, numa média geral, um banco de imagens é usado para uma mídia não muito grande?

Juliane – Para mídia grande inviabiliza. Para layout, é possível fazer com as imagens do banco, mas geralmente há muita fusão.

Tina – O banco de imagens geralmente disponibiliza para nós uma imagem de 70 a 100 dpi e isso facilita a qualidade do layout. Eu perguntei para um setor de artes do Samba e o que eles e nós achamos é que o diferencial do Samba é a qualidade de imagens, não a qualidade de resolução, mas os fotógrafos do Samba têm uma linguagem diferente, uma qualidade.

Juliane – Qualidade de fotos, de ter ângulos inusitados, de ter fotógrafos nacionais renomados, é todo um outro olhar. É comercial também, mas com uma qualidade criativa.

Juliane para Tina – Você fica mal quando vê uma imagem que foi utilizada de layout e depois vocês a produzem, e ela fica parecida com aquela imagem utilizada para o layout? Você acaba pensando: “Será que a gente podia ter contrato com o banco já que estamos produzindo tão parecido?”

Tina – Nunca aconteceu.

 
 

Mozart – Pelo visto existe um desejo do diretor de arte de fazer uma produção, mas em termos de custo o melhor seria não produzir?

Juliane – Produzir geralmente é mais caro, principalmente produções diferentes em paisagens, monumentos, fora de São Paulo e do Brasil. Tem que ver cada caso, mas de forma geral, produzir envolve mais pessoas, a agência, o cliente que quer ver figurino, locação, etc.

Cássio – Produzir supõe na teoria ter um trabalho mais original, o que não acontece, pois se usa um banco de imagens para fazer layout, monta-se algo ou se utiliza uma imagem só e depois se tenta recriar aquilo. Então, na verdade, não se está fazendo algo original, está se copiando algo. Esse é um vício que está acontecendo na publicidade muito ruim hoje em dia porque na época em que era o “rafe” era muito melhor, o diretor de arte falava “você tem que passar tal idéia”, com isso o fotógrafo ia atrás das imagens, tinha-se toda a liberdade e espaço para achar uma imagem que chegasse mais perto do que eles queriam. Agora eles montam a imagem, aí todo mundo vê aquilo e quer que a foto seja feita igual. Eu já passei por várias situações ridículas, por exemplo, com o layout em uma mão e o Polaroid em outra fazendo jogo dos sete erros para conseguir chegar igual ao layout que eles montaram. Uma coisa muito ruim para o fotógrafo que eu sempre falo é que perde a graça ser fotógrafo. Eu me sinto um executor de layout, não me sinto um fotógrafo que vai lá descobrir a melhor luz ou utilizar alguns elementos e fazer uma foto boa. Fico completamente amarrado. Em várias situações aconteceu isso de ficar copiando. Não me sinto um fotógrafo como um todo. Isso é algo legal para se falar porque principalmente a geração nova já tem esse vício. Aí a criação e o cliente vêem, todos ficam presos naquela imagem e não aceitam mudanças.

Mozart – O poder de decisão está na equipe de criação?

Tina – Na verdade, é o cliente. Ele fica apegado ao layout.

Cássio – As próprias agências hoje em dia estão se prejudicando com essa atitude, pois ficam nas mãos do cliente. Poderiam tentar fazer um trabalho melhor e não fazem.

Mozart – Todo o processo em termos criativos acaba empobrecido.

Cássio – E muito. Você não tem margem para acrescentar quase nada. Realmente é um trabalho engessado na maioria das vezes. Por isso que eu procuro trabalhos que me contratam para ir a tal lugar ou fazer tal coisa e lá eu vou utilizar o meu conhecimento e minha base como fotógrafo para naquela experiência poder arrancar o máximo possível.

Tina – É mais um ensaio?

Cássio – Um ensaio. É delicado, sei que vou ter a liberdade e vão confiar que farei uma imagem boa. É cíclico, acredito que logo vai começar um movimento contra isso. Alguns diretores de arte já me falaram, tem-se essa esperança de voltar um pouco. De que alguma agência chegue e fale “o layout agora vai ser um ‘rafe’.

Juliane – Tem que trabalhar o cliente novamente.

Cássio – A agência tem mal acostumado o cliente.

Tina – Não acho que a culpa seja da agência, é uma tendência da própria tecnologia. Hoje você liga para um banco de imagens e pede uma imagem em 100 dpi. Em trinta minutos está na sua máquina.

Cássio – É visível que isso foi acontecendo e acontece cada vez mais.

Tina – Então, mas é que houve esse desequilíbrio entre a tecnologia e a atividade de se conseguir uma boa imagem.

Cássio para Tina – E o layout que vai pra agência? Não deveria ser cobrado um preço simbólico?

Tina – Não.

Mozart – Cássio, como é a sua relação com o banco? Você se preocupa em saber qual o desempenho do seu material? (Cássio é o fotógrafo com mais imagens no Sambaphotos).

Cássio – Tenho bastante interesse, até preciso dessas informações para me guiar, saber o que é mais interessante produzir, o que dá mais retorno.

Juliane – Acho que o Cássio já está em um nível como um fotógrafo de um banco de imagens que já tem um olho nas tendências, sabe o que mais vende, que é legal na foto, quantos elementos, se está mais na horizontal ou vertical, etc.

Mozart – Qual a diferença de fazer um ensaio em que você se dirige? Você se guia no que identifica como o que pode ser vendido, como sendo tendência?

Cássio – É muito mais prazeroso o ato de fotografar produzindo para banco de imagem porque eu estou produzindo o que quero e gosto. É um risco obviamente, eu não sei quanto e nem quando que vou vender, mas é um investimento que confio, por isso que estou fazendo. Tenho certeza de que vai dar certo como já deu em muitas coisas que fiz. Para o banco de imagem, tudo pode ser feito, no carro, na praia, em viagem. Se começar a pensar por esse ângulo, você fica mais atento. Estou sempre fotografando e sempre acumulando imagens e o digital contribuiu muito para isso.

Mozart – Quanto você dedica do seu tempo para isso?

Cássio – Uns 30%. Mas qualquer viagem que faço, levo a câmera e invisto. É minha terapia.

Juliane – O tempo dedicado é de 30% e quanto ao faturamento, você tem idéia de quanto representa?

Cássio – Acho que está próximo a isso.

Mozart – Os fotógrafos já sabem trabalhar com banco de imagem? Como está estabelecida essa relação entre fotógrafos e bancos hoje focando São Paulo?

Juliane – Tem fotógrafo que tem um pouco de medo ou talvez preconceito. Cássio, você imaginava há algum tempo atrás que iria participar de um banco?

Cássio – Sempre tive vontade, mas nunca aconteceu de conseguir viabilizar. Desde 1985. Aí o Samba apareceu e estou lá desde o começo.

Juliane – Alguns fotógrafos ainda têm um pouco de medo de tirar dos seus arquivos e colocar em algum lugar para todos verem, de ir para algum lugar em que não tenham controle.

Mozart – Tem idéia de quantos fotógrafos que estão no time do Samba trabalham com digital?

Juliane – Uns 80%.

Cássio – Qual a porcentagem das fotos do Samba que estão no site?

Juliane – 95%.

Mozart – Gostaria de saber a opinião de cada um sobre royalty free de CDs.

Juliane – Na Sambaphotos nunca trabalhamos dessa forma por causa do time de fotógrafos, não consigo enxergar um trabalho com royalty free.

Tina para Juliane – Você acha que transforma o banco em um varejo?

Juliane – Acho. Vejo o royalty free assim. Por exemplo, a gente sempre pensa no lado do cliente. Estou vendendo uma imagem para o cliente do segmento bancário e a mesma imagem estou vendendo para outro cliente do mesmo segmento. Não consigo ver isso no Samba.

Tina – Mas as imagens de bancos de royalty free são mais neutras geralmente. Eu tinha um preconceito com relação porque já trabalhei do outro lado como agente de fotógrafos, então tenho um olhar de valorizar as fotos e realmente numa foto royalty free, os valores “voam” completamente. Mas estando agora em agência, vejo que muitas vezes isso facilita a vida do cliente, mas assim não dá. Existem limitações de um banco de royalty free em relação ao tamanho da imagem. São imagens que são escaneadas num tamanho menor. Se eu tenho um painel, cartaz ou pôster, a imagem já perde qualidade de resolução, já vem granulada. Lutamos para fazer a foto como os fotógrafos querem, como acreditamos que vai agregar valor à foto, de forma criativa, usando um bom produtor ou os melhores bancos que são também os mais caros, só que o preço tem sido um fator muito importante, o cliente quer saber onde vai investir seu dinheiro, não está mais fechando os olhos para o orçamento como há dez anos.

Cássio – Nessa questão digital e analógico, acho bom deixar claro que muito fotógrafo anda cobrando mais barato por ser digital e o cliente também tem essa noção. Não deveria ser assim, porque no momento em que o fotógrafo está usando o digital, está fazendo um investimento muito mais alto do que no analógico. Precisa ter um computador de ponta, em geral um laptop que é mais caro, precisa de tempo para abrir e tratar a imagem. Na verdade, o digital é para ser até mais caro. O que você não gasta com filme e revelação se puser na ponta do lápis não sei se amortiza todo o equipamento necessário.

Tina – Acho que isso é um pouco de falta de conhecimento. O critério do preço depende do veículo, se é um folheto ou uma revista Veja, por exemplo. Mas a questão hoje é o quanto você consegue negociar, apresentar para o cliente vantagem, mostrar que ele está fazendo um bom negócio, com o melhor fotógrafo e com o melhor preço. Aí é muita cara de pau e conseguir um bom negócio para todos. Essa é a parte mais difícil, na minha opinião. As pessoas têm que estar satisfeitas, os fotógrafos têm que clicar felizes. Têm que ter um alto astral e motivação. Foto é sentimento.

Mozart – Como você vê os novos fotógrafos no Brasil?

Tina – Eu ainda creio muito nos mais experientes, dos novos ainda não vi nada que me impressionasse. Eu não sei se é por causa da tecnologia que deu uma abafada no sentimento. Fotografar é sentimento e isso pode ter perdido um pouco, os novos pararem de sentir e resolveram copiar ou fazer algo mais ‘ego’ e não com sentimento. Trabalho com fotógrafos novos, mas acabo priorizando campanhas com quem conheço há muito tempo.

Juliane – Tem muito fotógrafo de moda que utiliza tanta referência que fica meio perdido entre o que é fotografar moda no Brasil, o que é fotografar moda em NY, fica tudo meio parecido. Mas sempre foi assim a fotografia de moda?

Cássio – Acho que a culpa é muito mais das editoras do que dos fotógrafos, pois elas já chegam com a referência da revista de moda.

Juliane – Tirando os fotógrafos de moda, acho que os fotógrafos jovens têm uma visão muito mais legal do Brasil. Você olha e vê que é algo natural deles, sem cópias. Eles têm uma coisa voltada para o Brasil. Eu não via isso antes. Vejo muito nos novos que estão começando a sua história por aqui, querendo fazê-la aqui dentro. Acho bem legal.

Mozart – E esses trabalhos estão sendo vendidos? Essa geração sobrevive legal?

Juliane – Sim. Sobrevivem bem. Misturam um pouco de fotojornalismo, documentário, publicidade.

Mozart para Tina – Você é assediada por fotógrafos que batem à sua porta e querem marcar reunião?

Tina – Sim, mas nem sempre dá para marcar porque é muita correria. Tem que dar uma selecionada porque tem bastante. É interessante, pois como vejo de tudo, vai aprimorando, teu olho fica treinado. Esses novos fotógrafos nunca me procuraram.

 

Mozart – Queria que vocês falassem dos conflitos entre agências, bancos e fotógrafos.

Juliane – Hoje temos cerca de 170 fotógrafos no Samba, uma das razões para a gente não querer abrir muito é a atenção que temos que dar para cada fotógrafo e o processo da entrega da foto até entrar no site ainda é muito lento.

Mozart – Quanto tempo mais ou menos?

Juliane – De dois a quatro meses. O Samba já cresceu, mas ainda não compensa termos uma estrutura maior do que a existente. Hoje temos oito pessoas.

Mozart – E os conflitos para o lado de cá (referindo-se às agências)?

Juliane – Os problemas de layout já falados.

Mozart para Cássio – E quanto às remunerações e preços. O que se paga para os fotógrafos é o justo?

Cássio – Há um tempo atrás compensava mais. Hoje temos que fazer um investimento muito grande em um espaço de tempo muito curto. Tudo está agregado, tenho que estar sempre investindo um valor muito alto e a remuneração nesse sentido está defasada, não cobrindo todo esse custo. Antigamente você investia num equipamento e a durabilidade era maior. Com digital investe-se muito hoje e no ano que vem já tem algo melhor.

Tina – O mercado está diferente agora, outras preocupações, inclusive com a segurança.

Juliane – Pelo que eu conheço de agência é assim: em primeiro lugar, a mídia, depois a produção gráfica e a gente sente que na maioria das vezes a fotografia está em último lugar.

Cássio – O problema que a gente sente com a agência é o prazo. É super comum, você passa o orçamento, e fica no mínimo vinte dias. Aí ligam e querem a foto para o dia seguinte. Tem uma falha grande aí, no atendimento de agência.

Tina – É o cliente mesmo. A gente cuida da comunicação mesmo e o cliente cuida de outras coisas dentro da empresa.

Cássio – Uma falha da agência é que eles invertem as coisas, eles compram a mídia primeiro e depois põem para produzir, então não sabem se vai chover, etc.

Tina – Comprar a mídia significa fechar negócio e realmente não está certo, mas as coisas estão acontecendo muito rápido, a concorrência entre as agências está muito grande. Você é uma agência, vira a cara e a outra agência rouba seu cliente, não existem muitos escrúpulos. As coisas estão nesse nível.

 
 

Cássio – Outro grande problema: o prazo pra entregar a foto, você faz a foto com pressa, corre um risco, a foto não sai muito bem porque você teve que honrar o prazo do cliente, aí por milagre aparece um prazo para refazer a foto.

Tina – Não é por milagre, foi perdida uma veiculação, foram perdidos cem mil reais na Veja, com certeza, entrou outro anúncio...

Mozart – Não tem uma margem de negociação?

Tina –Às vezes tem, acontece de dar tudo certo e perder a mídia, é porque alguma coisa aconteceu.

Cássio – Se perder a mídia é bem-feito por não fazer a coisa direito.

Tina – Você não perde a mídia e sim perde de colocar aquela foto naquela mídia. A gente coloca uma outra imagem, diferente dos planos. É uma saia-justa mesmo, a gente sabe que o fotógrafo necessita e a produção também. Tem que fazer reunião de pré-produção, tem que ir todo mundo à agência, conversar, quanto mais as pessoas envolvidas na foto estiverem entrosadas, melhor a foto sai.

Cássio – Por isso a maioria das fotos são aprovadas na sexta-feira no final do dia?

Tina – É o cliente mesmo que está lá com milhares de prioridades, eu não acho certo mesmo.

Mozart – Fica claro que o lado mais fraco é o do fotógrafo que segura a bronca.

Tina – Eu tenho amigos clientes que falam que deixam para decidir na última hora porque a agência faz o que eles mandarem. O cliente marca uma reunião às 10 horas, a gente desmarca tudo que tínhamos, o cliente diz que a reunião vai ser às 9 horas, então a reunião vai ter que ser às 9. Essa é a agência ali o tempo inteiro para atender o cliente. A agência é assim. Nós somos o intermediador entre o fotógrafo e o cliente porque o fotógrafo vai fazer a foto através da agência mas para o cliente.

Mozart – Você já teve piti de fotógrafo por causa disso?

Tina – Eu já me estressei muito com isso, mas aprendi com o tempo como eu tenho que ser e como tenho que lidar. Tem essa coisa da arte, o fotógrafo tem uma agenda, ele está envolvido em outros projetos, tem uma vida profissional, ele não vive só para fotografar publicidade. Essa é a hora em que temos que ter um jogo de cintura para conseguir fazer tudo a nosso favor.

Cássio – Você que já esteve dos dois lados, qual é o melhor?

Tina – Não tem melhor porque o foco é a fotografia, não amo a agência nem o fotógrafo, amo a fotografia. Amo a imagem, eu amo o que ela pode fazer com as pessoas, o que pode mudar na vida de alguém ou para vender o produto. Amei trabalhar com fotógrafos, aprendi muito. Quando comecei na agência foi muito difícil para ter um meio-termo de pensar como agência, mas ao mesmo tempo entender o fotógrafo, não explorá-lo, mas valorizá-lo. Trabalhei três anos como agente e agora três anos e meio como artbuyer. Não existe melhor, tenho saudade de trabalhar com fotógrafos, mas é muito legal trabalhar com agência pelo movimento.

Mozart – A Tina é representativa enquanto artbuyer? Ela representa a classe?

Cássio – Ela é uma pessoa supercapacitada.

Mozart – Todos são nesse nível?

Cássio – Não. Mas como um todo, melhorou nos últimos anos.

Tina – Vem melhorando, até porque a categoria artbuyer vem exigindo isso das pessoas.

Juliane – Está melhorando, mas ainda não é o ideal. Porque você não vê a pessoa sendo escolhida por ter mais jogo de cintura, saber negociar, às vezes não sabe a diferença entre um negativo e um cromo. Você vê artbuyer que não conhece as informações técnicas.

 
 
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