| Mozart
– Pelo visto existe
um desejo do diretor de
arte de fazer uma produção,
mas em termos de custo
o melhor seria não
produzir?
Juliane
– Produzir geralmente
é mais caro, principalmente
produções
diferentes em paisagens,
monumentos, fora de São
Paulo e do Brasil. Tem
que ver cada caso, mas
de forma geral, produzir
envolve mais pessoas,
a agência, o cliente
que quer ver figurino,
locação,
etc.
Cássio
– Produzir supõe
na teoria ter um trabalho
mais original, o que não
acontece, pois se usa
um banco de imagens para
fazer layout, monta-se
algo ou se utiliza uma
imagem só e depois
se tenta recriar aquilo.
Então, na verdade,
não se está
fazendo algo original,
está se copiando
algo. Esse é um
vício que está
acontecendo na publicidade
muito ruim hoje em dia
porque na época
em que era o “rafe”
era muito melhor, o diretor
de arte falava “você
tem que passar tal idéia”,
com isso o fotógrafo
ia atrás das imagens,
tinha-se toda a liberdade
e espaço para achar
uma imagem que chegasse
mais perto do que eles
queriam. Agora eles montam
a imagem, aí todo
mundo vê aquilo
e quer que a foto seja
feita igual. Eu já
passei por várias
situações
ridículas, por
exemplo, com o layout
em uma mão e o
Polaroid em outra fazendo
jogo dos sete erros para
conseguir chegar igual
ao layout que eles montaram.
Uma coisa muito ruim para
o fotógrafo que
eu sempre falo é
que perde a graça
ser fotógrafo.
Eu me sinto um executor
de layout, não
me sinto um fotógrafo
que vai lá descobrir
a melhor luz ou utilizar
alguns elementos e fazer
uma foto boa. Fico completamente
amarrado. Em várias
situações
aconteceu isso de ficar
copiando. Não me
sinto um fotógrafo
como um todo. Isso é
algo legal para se falar
porque principalmente
a geração
nova já tem esse
vício. Aí
a criação
e o cliente vêem,
todos ficam presos naquela
imagem e não aceitam
mudanças.
Mozart
– O poder de decisão
está na equipe
de criação?
Tina
–
Na verdade, é o
cliente. Ele fica apegado
ao layout.
Cássio
– As próprias
agências hoje em
dia estão se prejudicando
com essa atitude, pois
ficam nas mãos
do cliente. Poderiam tentar
fazer um trabalho melhor
e não fazem.
Mozart
– Todo o processo
em termos criativos acaba
empobrecido.
Cássio
– E muito. Você
não tem margem
para acrescentar quase
nada. Realmente é
um trabalho engessado
na maioria das vezes.
Por isso que eu procuro
trabalhos que me contratam
para ir a tal lugar ou
fazer tal coisa e lá
eu vou utilizar o meu
conhecimento e minha base
como fotógrafo
para naquela experiência
poder arrancar o máximo
possível.
Tina
–
É mais um ensaio?
Cássio
– Um ensaio. É
delicado, sei que vou
ter a liberdade e vão
confiar que farei uma
imagem boa. É cíclico,
acredito que logo vai
começar um movimento
contra isso. Alguns diretores
de arte já me falaram,
tem-se essa esperança
de voltar um pouco. De
que alguma agência
chegue e fale “o
layout agora vai ser um
‘rafe’.
Juliane
– Tem que trabalhar
o cliente novamente.
Cássio
– A agência
tem mal acostumado o cliente.
Tina
–
Não acho que a
culpa seja da agência,
é uma tendência
da própria tecnologia.
Hoje você liga para
um banco de imagens e
pede uma imagem em 100
dpi. Em trinta minutos
está na sua máquina.
Cássio
– É visível
que isso foi acontecendo
e acontece cada vez mais.
Tina
–
Então, mas é
que houve esse desequilíbrio
entre a tecnologia e a
atividade de se conseguir
uma boa imagem.
Cássio
para Tina
–
E o layout que vai pra
agência? Não
deveria ser cobrado um
preço simbólico?
Tina
–
Não.
Mozart
– Cássio,
como é a sua relação
com o banco? Você
se preocupa em saber qual
o desempenho do seu material?
(Cássio é
o fotógrafo com
mais imagens no Sambaphotos).
Cássio
–
Tenho bastante interesse,
até preciso dessas
informações
para me guiar, saber o
que é mais interessante
produzir, o que dá
mais retorno.
Juliane
– Acho que o Cássio
já está
em um nível como
um fotógrafo de
um banco de imagens que
já tem um olho
nas tendências,
sabe o que mais vende,
que é legal na
foto, quantos elementos,
se está mais na
horizontal ou vertical,
etc.
Mozart
– Qual
a diferença de
fazer um ensaio em que
você se dirige?
Você se guia no
que identifica como o
que pode ser vendido,
como sendo tendência?
Cássio
– É muito
mais prazeroso o ato de
fotografar produzindo
para banco de imagem porque
eu estou produzindo o
que quero e gosto. É
um risco obviamente, eu
não sei quanto
e nem quando que vou vender,
mas é um investimento
que confio, por isso que
estou fazendo. Tenho certeza
de que vai dar certo como
já deu em muitas
coisas que fiz. Para o
banco de imagem, tudo
pode ser feito, no carro,
na praia, em viagem. Se
começar a pensar
por esse ângulo,
você fica mais atento.
Estou sempre fotografando
e sempre acumulando imagens
e o digital contribuiu
muito para isso.
Mozart
– Quanto
você dedica do seu
tempo para isso?
Cássio
– Uns 30%. Mas qualquer
viagem que faço,
levo a câmera e
invisto. É minha
terapia.
Juliane
– O tempo dedicado
é de 30% e quanto
ao faturamento, você
tem idéia de quanto
representa?
Cássio
– Acho que está
próximo a isso.
Mozart
– Os fotógrafos
já sabem trabalhar
com banco de imagem? Como
está estabelecida
essa relação
entre fotógrafos
e bancos hoje focando
São Paulo?
Juliane
– Tem fotógrafo
que tem um pouco de medo
ou talvez preconceito.
Cássio, você
imaginava há algum
tempo atrás que
iria participar de um
banco?
Cássio
– Sempre tive vontade,
mas nunca aconteceu de
conseguir viabilizar.
Desde 1985. Aí
o Samba apareceu e estou
lá desde o começo.
Juliane
– Alguns fotógrafos
ainda têm um pouco
de medo de tirar dos seus
arquivos e colocar em
algum lugar para todos
verem, de ir para algum
lugar em que não
tenham controle.
Mozart
– Tem idéia
de quantos fotógrafos
que estão no time
do Samba trabalham com
digital?
Juliane
– Uns 80%.
Cássio
– Qual a porcentagem
das fotos do Samba que
estão no site?
Juliane
– 95%.
Mozart
– Gostaria de saber
a opinião de cada
um sobre royalty free
de CDs.
Juliane
– Na Sambaphotos
nunca trabalhamos dessa
forma por causa do time
de fotógrafos,
não consigo enxergar
um trabalho com royalty
free.
Tina
para
Juliane
– Você acha
que transforma o banco
em um varejo?
Juliane
– Acho. Vejo o royalty
free assim. Por exemplo,
a gente sempre pensa no
lado do cliente. Estou
vendendo uma imagem para
o cliente do segmento
bancário e a mesma
imagem estou vendendo
para outro cliente do
mesmo segmento. Não
consigo ver isso no Samba.
Tina
–
Mas as imagens de bancos
de royalty free são
mais neutras geralmente.
Eu tinha um preconceito
com relação
porque já trabalhei
do outro lado como agente
de fotógrafos,
então tenho um
olhar de valorizar as
fotos e realmente numa
foto royalty free, os
valores “voam”
completamente. Mas estando
agora em agência,
vejo que muitas vezes
isso facilita a vida do
cliente, mas assim não
dá. Existem limitações
de um banco de royalty
free em relação
ao tamanho da imagem.
São imagens que
são escaneadas
num tamanho menor. Se
eu tenho um painel, cartaz
ou pôster, a imagem
já perde qualidade
de resolução,
já vem granulada.
Lutamos para fazer a foto
como os fotógrafos
querem, como acreditamos
que vai agregar valor
à foto, de forma
criativa, usando um bom
produtor ou os melhores
bancos que são
também os mais
caros, só que o
preço tem sido
um fator muito importante,
o cliente quer saber onde
vai investir seu dinheiro,
não está
mais fechando os olhos
para o orçamento
como há dez anos.
Cássio
– Nessa questão
digital e analógico,
acho bom deixar claro
que muito fotógrafo
anda cobrando mais barato
por ser digital e o cliente
também tem essa
noção. Não
deveria ser assim, porque
no momento em que o fotógrafo
está usando o digital,
está fazendo um
investimento muito mais
alto do que no analógico.
Precisa ter um computador
de ponta, em geral um
laptop que é mais
caro, precisa de tempo
para abrir e tratar a
imagem. Na verdade, o
digital é para
ser até mais caro.
O que você não
gasta com filme e revelação
se puser na ponta do lápis
não sei se amortiza
todo o equipamento necessário.
Tina
–
Acho que isso é
um pouco de falta de conhecimento.
O critério do preço
depende do veículo,
se é um folheto
ou uma revista Veja, por
exemplo. Mas a questão
hoje é o quanto
você consegue negociar,
apresentar para o cliente
vantagem, mostrar que
ele está fazendo
um bom negócio,
com o melhor fotógrafo
e com o melhor preço.
Aí é muita
cara de pau e conseguir
um bom negócio
para todos. Essa é
a parte mais difícil,
na minha opinião.
As pessoas têm que
estar satisfeitas, os
fotógrafos têm
que clicar felizes. Têm
que ter um alto astral
e motivação.
Foto é sentimento.
Mozart
– Como você
vê os novos fotógrafos
no Brasil?
Tina
–
Eu ainda creio muito nos
mais experientes, dos
novos ainda não
vi nada que me impressionasse.
Eu não sei se é
por causa da tecnologia
que deu uma abafada no
sentimento. Fotografar
é sentimento e
isso pode ter perdido
um pouco, os novos pararem
de sentir e resolveram
copiar ou fazer algo mais
‘ego’ e não
com sentimento. Trabalho
com fotógrafos
novos, mas acabo priorizando
campanhas com quem conheço
há muito tempo.
Juliane
– Tem muito fotógrafo
de moda que utiliza tanta
referência que fica
meio perdido entre o que
é fotografar moda
no Brasil, o que é
fotografar moda em NY,
fica tudo meio parecido.
Mas sempre foi assim a
fotografia de moda?
Cássio
– Acho que a culpa
é muito mais das
editoras do que dos fotógrafos,
pois elas já chegam
com a referência
da revista de moda.
Juliane
– Tirando os fotógrafos
de moda, acho que os fotógrafos
jovens têm uma visão
muito mais legal do Brasil.
Você olha e vê
que é algo natural
deles, sem cópias.
Eles têm uma coisa
voltada para o Brasil.
Eu não via isso
antes. Vejo muito nos
novos que estão
começando a sua
história por aqui,
querendo fazê-la
aqui dentro. Acho bem
legal.
Mozart
– E esses trabalhos
estão sendo vendidos?
Essa geração
sobrevive legal?
Juliane
– Sim. Sobrevivem
bem. Misturam um pouco
de fotojornalismo, documentário,
publicidade.
Mozart
para Tina
–
Você é assediada
por fotógrafos
que batem à sua
porta e querem marcar
reunião?
Tina
–
Sim, mas nem sempre dá
para marcar porque é
muita correria. Tem que
dar uma selecionada porque
tem bastante. É
interessante, pois como
vejo de tudo, vai aprimorando,
teu olho fica treinado.
Esses novos fotógrafos
nunca me procuraram. |