Texto: Regina Sinibaldi
Fotos: Iara Moribe


Uma das maiores associações de fotógrafos publicitários do mundo, a Associação Brasileira dos Fotógrafos de Publicidade (Abrafoto) tem muito a ensinar em seus 20 anos de existência e principalmente a colegas de outras áreas, como a da fotografia de casamento, que sonham ter uma associação no Brasil que defenda princípios éticos e profissionais no mercado.

FHOXSP promoveu, em 24 de novembro, bate-papo com o presidente da Abrafoto, Alexandre Catan, e o fotógrafo de casamento Amauri Domingos. Acompanhe, a seguir, trechos da conversa.

FHOXSP - Quais os desafios com sua chegada à Presidência da Abrafoto em 2005?
Catan - Um dos desafios é resgatar a credibilidade entre os associados. Ela tem muito mais credibilidade no mercado, com as agências, as pessoas, as instituições. Num certo momento a gente pensou que ela poderia morrer. No passado era uma associação mais fechada, ela não chegava ao associado. Na verdade a nova diretoria foi convidada pela antiga. Eu, por exemplo, nunca pensei em ser presidente de uma associação, muito mais acumular um cargo além dos milhões de coisas que a gente faz no dia-a-dia. Acho que o maior trabalho que estamos fazendo é mostrar ao associado que existe uma associação e que ela depende dele. Não adianta a gente ficar esperando que a associação faça alguma coisa pela gente. A associação somos nós.

Amauri - Converso com alguns amigos para tentar fazer alguma coisa na área de fotojornalismo de casamento, mas tem uma desunião muito grande.

Catan - No mundo moderno é praxe o individualismo das pessoas e a pouca participação em atividades da comunidade. O cara está mais preocupado com ele. Ele liga como se a gente tivesse que passar trabalho para ele. A associação não pode ser tratada como um clube, todos podem participar. Hoje para se associar o fotógrafo tem que ter dois anos de fotografia publicada, empresa aberta. Antigamente ele mandava portfólio. Era uma coisa complicada porque é subjetivo esse critério.

FHOXSP - Hoje a fotografia publicitária brasileira é São Paulo?

Catan - É São Paulo. Um pouco no Rio, mas os fotógrafos de lá têm vindo para cá. São Paulo acaba sendo centro, mas há excelentes fotógrafos pelo país. Foi a publicidade que se concentrou em São Paulo e não os fotógrafos. O Rio vem em segundo lugar e, em terceiro, Porto Alegre, acho.

Amauri - Qual o primeiro passo para criar uma associação?

Catan - Olha, não tenho idéia. Primeiro, acho que as pessoas têm que estar interessadas. Juridicamente é uma organização sem fins lucrativos, com estatutos. A diretoria não pode ser remunerada, tem contador, etc. Precisa ser transparente.

 
 

FHOXSP - Catan, quem fez a fotografia de seu casamento?

Catan - Foram os amigos. A gente deixou umas câmeras e todo mundo fotografou. Meu assistente fez polaróides. Foi uma festa em casa, uma coisa mais informal. Sei que nos últimos tempos a fotografia de casamento cresceu bastante, tenho alguns amigos que migraram, como André Penteado, tem a Nana que trabalhou comigo na Almap, tem o Cris. Casamento era assim numa época: manda o assistente fotografar.

Amauri - Era meio marginalizado...

Catan - O fotógrafo sempre foi meio marginalizado. Um amigo de infância casou a pouco e ele disse: “Manda um cara e a fotografia vai ser por sua conta”. Mandei meus dois assistentes, mas não são preparados para isso. Já vi gente que perdeu fotos da cerimônia, da sogra da noiva. Conclusão: foi a primeira crise do casamento.

Amauri - O fotógrafo publicitário é mais respeitado pelo mercado que o de casamento.

Catan - Acho um pouco ilusão. O profissional liberal como um todo ninguém respeita muito hoje em dia. E outra coisa: a gente vende serviço e não produto. Cada um tem seu valor. Se eu pedir cem mil para fotografar essa xícara e outro mil, podem achar que eu seja ladrão. Mas eu acho que vale isso. Primeiro porque os custos são diferentes, o investimento em equipamentos, etc.

 

FHOXSP - Catan, o fotógrafo publicitário volta a ser mais procurado?

Catan - Toda tecnologia tem esse momento de adaptação. O back digital, Phase One, custa 30 mil dólares e funciona melhor na interface da Hassel 2 que custa oito mil dólares que só pega lente para ela, que custa mais de três mil dólares, fora ter um computador bem potente. Então, o cliente liga e fala: “Faz digital que é mais barato”. Qualquer estúdio profissional para ser digital precisa de 80 mil dólares.

Amauri - O seu cliente pede digital?

Catan - Depende do nível de conhecimento. Às vezes perguntam. O pessoal não entende nosso universo.

Amauri - O meu pergunta porque ele tem uma camerazinha digital em casa.

Catan - O digital ainda não é uma tecnologia dominada totalmente. Tem gente que sai com back e filme. O problema também é que o digital não tem original. Você põe na tela e está lindo, manda imprimir e está totalmente diferente. Como vai estar o direito autoral no digital? Hoje o site da Abrafoto está em reformulação e vai ter uma área fechada para o associado, é o fórum, além de uma área aberta para todos.

FHOXSP - Catan, qual o melhor setor da economia para a publicidade?

Catan - Telefonia celular, sem dúvida. Ainda existe muito automóvel. Agora cigarro acabou, bebida por causa das restrições e porque a Ambev domina o mercado.

Amauri - Se a gente pegar como padrão carro do ano, apartamento e viagem. Dá para viver de fotografia publicitária?

Catan - Dá. Tranqüilo, eu não diria.

Amauri - Você tem dois ou 50 amigos fotógrafos publicitários? Na minha área é complicado.

Catan - Não é uma classe unida, mas a gente se entende bem. No geral os fotógrafos se entendem bem. Não acho que isso seja exclusivo do fotógrafo, mas do homem moderno. Tem também muita vaidade. Mas existe um respeito acima de tudo. A gente pega muito equipamento emprestado, rola muito.

FHOXSP - Se tivesse uma empresa que alugasse como nos Estados Unidos, a coisa vingaria?

Catan - Eu não sei porque o investimento é muito alto. A fotografia no Brasil se configurou de um jeito que você precisa ter tudo. Ao mesmo tempo, na década de 80, o fotógrafo publicitário ganhava muito; o mercado era pequeno. Acho que o investimento é de longo prazo. Como cinema: o cara vai à produtora e aluga a câmera. Em Nova York, você tem o básico, o resto aluga.

FHOXSP - Qual a abrangência da Abrafoto?

Catan - É referência padrão. Veja, orçamento. A pessoa não tem que seguir, a gente não é igreja. A gente segue o modelo americano. Tem pontos negativos, como preço. Mas o mercado permite fazer concorrência com o critério que você quiser.

Amauri - Você pode ter um excelente trabalho aqui e ser reconhecido lá fora.

Catan - O mercado americano é muito específico, mas o europeu aceita mais. Conheço muita gente que trabalha para o mercado europeu. Acho que aqui a gente se valorizou. O mercado europeu não procura preço, procura personalidade, linguagem, enquanto o americano procura executor como aqui. Outra coisa: no Brasil, você tem que fazer de tudo, precisa ser versátil, ataca em todas as frentes.

Amauri - Minha categoria não tem nada. Tenho idéia de montar alguma coisa.

Catan - Qual a finalidade? Não é veiculação em massa...

Amauri - A fotografia de casamento cresceu muito, tanto é que fomos notados pela FHOX. A gente nunca teve um reconhecimento antes, e agora tem muita gente que migrou.

Catan - Existe diferença entre associação e sindicato. Uma coisa que a gente nunca sabe na fotografia são as caras, então é papel da associação promover encontros, debates, aquele assunto chato sobre lente, não sei mais o quê, que só interessa ao fotógrafo.

Para ter uma associação específica, você precisa de um quórum bom. Primeira coisa: na publicidade que os caras têm poder aquisitivo bom, eles reclamam de pagar 82 reais por mês. Associação não vive sem dinheiro, dá trabalho.

Amauri - Nos Estados Unidos a taxa para o associado é anual.

Catan - Na publicidade americana também é, só que não funciona aqui, é complicado. Aqui é o país da prestação sem juros. E tem gente que não paga. Agora foi mudado isso: depois de três meses sem pagamento, o fotógrafo é cortado, porque ele fica no site, usa seguro que é melhor taxa do mercado, é apólice coletiva. Eu entrei na Abrafoto, a princípio, por causa do seguro. Então, a associação dá assessoria jurídica, contábil, a gente quer fazer uma revista, informar as pessoas, fazer palestra, movimentar o mercado e ter credibilidade.
Eu acho que você teria que fazer uma avaliação, ver quantas pessoas estão interessadas, porque isso tem um custo. Vai ter que ter uma sede, contador, um funcionário, e fazer um trabalho de longo prazo. E pensar na comunidade e não em você e mais meia dúzia.

 
 
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