Texto: Regina Sinibaldi
Fotos: Marcelo Célio


Não importa se o modelo é mulher ou homem. O ensaio de nu é sempre trabalhoso e pede atenção redobrada do fotógrafo. Toda a produção – desde locação até retoques na maquiagem do modelo minutos antes – será sintetizada por suas lentes. E, claro, o resultado terá de ser fotos glamourosas. É um exercício de inspiração (e transpiração) constante.

Lá fora, a dinâmica é diferente. Isso por uma razão: as revistas estrangeiras contam com orçamentos mais generosos, facilitando a tarefa de cada profissional envolvido no ensaio. Há menos espaço para improvisações e mais tempo para planejamento e execução da sessão fotográfica.

Se o(a) leitor(a) está curioso(a), ao final deste bate-papo entre os papas da fotografia de nus no país que tal acessar www.bauerstudio.com.br e www.lailsonsantos.com.br? Tudo em nome da beleza evidentemente...

FHOXSP - Bauer como você começou esta história de nu masculino?
Bauer - Vai poder falar palavrão?
Lailson - Não se preocupe, depois ela corta tudo (risos).
Bauer - Comecei na fotografia em 87, aos 33 anos, trabalhava na Abril na área de marketing. Nada a ver com fotografia, mas fotografava como amador. Em 84 ganhei o prêmio Nikon. A foto era a b...a de duas mulheres (risos).

FHOXSP - Começou bem...
Bauer - É, mas voltando... Comecei com estúdio pequeno na 24 de Maio, no centro. Fiquei dois anos, muita pobreza, muita falta de dinheiro. Depois fui para o Limão e fiquei 12 anos e agora estou na Barra Funda.
Lailson - Sempre sozinho?
Bauer - Sim, sou uma pessoa difícil, sou muito vaidoso e gosto de mandar, de estar no comando. Trabalho com outro fotógrafo, mas a direção é minha.
Lailson - A gente tem quase o mesmo tempo de fotografia. Você que mudou uma vez de profissão, hoje tem coragem de mudar de novo? Eu não teria.
Bauer - Eu mudaria, mas sem largar a fotografia porque tenho paixão. Mas a relação comercial na fotografia é um porre. Hoje em dia capa é cromo ou digital?
Lailson - Capa é cromo. Acho que a produção poderia ser mais planejada. Você faz milhares de fotos para usar trinta. A maioria das revistas tem um padrão de capa. O legal seria colocar os cromos na mesa de luz e escolher a melhor foto.
Bauer - Independente se é erótica, as revistas perderam identidade. Se você tampar o logo delas, as pessoas não sabem identificar.

FHOXSP - Como é a evolução do nu?
Bauer - No meu mercado, eu não vejo. A maioria é quase a modelo fazendo sexo explícito sozinha, é tudo aberto, arregaçado. O cara que compra busca o êxtase, que é uma forma bacana de dizer o que ele busca. Não posso ser inocente de achar que ele quer ver o carro, etc., etc.

FHOXSP - Na história da fotografia brasileira você tem um capítulo à parte, por causa do nu masculino.
Bauer - As pessoas dizem isso, mas eu não sinto assim. Na verdade eu comecei a criar uma linguagem antes da G Magazine. Um dia estava de saco cheio de fotografar lata, parafuso. Um amigo tinha me trazido da Europa postais e livros de nu para eu ver. Então fiz tudo passo de formiguinha. A G não me descobriu por acaso. Naquela comecei fazendo quatro postais, estava experimentando o mercado. Levei primeiro nas empresas de postal e eles ficaram horrorizados. Então criei um display e coloquei em bancas. E vendia. Tinha banca que vendia mais de 200 postais por mês. Tinha banca que não vendia nenhum porque o jornaleiro colocava no fundo atrás de flâmulas, pra ninguém ver. Eu tinha colocado um telefone de contato e tocava o dia todo. Fiz isso durante um ano e um dia chegou às mãos de um pessoal que pensava numa revista assim. Fazia foto de homem e mulher separados e do casal. Eram fotos sensuais e tudo em preto-e-branco.
Daí tinha um grupo que montava a Banana Louca (revista extinta). Procuraram a Sexy para parceria. Era de ensaios nu masculino e eu já era referência. Nem pêlos pubianos foram mostrados no primeiro número. Os leitores detonaram porque queriam ver tudo. Vieram outros números, mas não vendia. Aí outro pessoal pegou o projeto e criou a G Magazine. A primeira edição também não tinha pêlos pubianos, era leve. O modelo foi Vitor Xavier, era uma coisa meio cowboy. Todo o ensaio foi feito em estúdio. Não tinha nada hard.
Lailson - E quantas edições demorou para virar?
Bauer - Na segunda já virou, por que senão a revista não venderia. Eu dizia isso desde a Banana, porque o público queria. Acho que a G já foi mais erótica, hoje está meio apaziguada, mas não é atrevida como no início por causa de anunciantes.
Lailson - Às vezes o mercado editorial no Brasil esquece que quem manda é o leitor. O anunciante não vende, se ninguém compra a revista.
Bauer - É muito complicado. Quando ele não quer anunciar, dá a desculpa que é muito explícito. Aí a revista suaviza e ele continua não anunciando. Então apareceu a G News, só textos. Matérias falando sobre sexualidade, papo-cabeça, bem bacana. Vendeu porra nenhuma. Te pergunto: você gosta de ensaio de mulher feito por mulher?
Lailson - Depende do veículo. Na Playboy, por exemplo, tanto faz porque a proposta é despir a estrela, não é a sensualidade. Quando se busca o sexo, é importante ter um fotógrafo que veja algum sentido naquela nudez, daquela maneira. Eu até hoje não fotografei homem nu, não que não faria, mas gosto muito de dirigir a mulher na sessão.
Bauer - E tem mulher que é horrorosa de se fotografar e homem pior ainda.
Lailson - Não existe mulher feia, o problema é não ter sensualidade. O resto é fácil.
Bauer - Já tive mais problemas de ensaio com mulher do que com homem. No meio da sessão ela pensa no pai, no noivo, e começa a chorar. Depois pensa no dinheiro e aí pára de chorar e retoma a sessão (risos).

FHOXSP - Você só faz editorial Bauer?
Bauer - Não, faço still, publicidade. Mas o mercado caiu muito por causa da digital e dos bancos de imagens.
Lailson - Uma agência me ligou pedindo layout e falou: “Você entra na concorrência e paga tudo”. Eu disse: “Me desculpe, mas isso eu não faço”.
Bauer - Está certo, o digital democratizou a fotografia. Está todo mundo virando fotógrafo. Pra que chamar fotógrafo, fotografa aqui com a cartolina branca e depois a gente corrige no Photoshop. O cara fica trabalhando mais de seis horas numa foto porque o outro não quer pagar uma foto. Sumiu cliente.

 
 

FHOXSP - No começo era só você fazendo nu masculino. E hoje?
Bauer- Era mesmo. Mas aí tem todo dia fotógrafo mostrando portfólio na G Magazine. A maioria está em São Paulo. Mas o mercado está mudando, está indo para a Internet. Sites de acompanhantes.
Lailson - Como é que é?
Bauer - No site a mulher é bonita, mas pessoalmente...
Lailson - Na publicidade você está vendendo uma idéia, um conceito, então não tem enganação.
Bauer - Tem um santo que se chama Spielberg, o mago dos efeitos. Já vi cabeleireiro comentar que a mulher não lavava o cabelo fazia um mês. Todas querem ser modelo e Globo só tem uma. Muitas fazem escondido da família, do marido. Eu não acreditava. Orientação à minha equipe: não se metam com essas meninas, nada de gracinhas, porque daqui a pouco vem gente na porta do estúdio querendo dar tiro. Tem história que viraria quadro do programa Zorra Total.

FHOXSP - Lailson, você quase não está falando. Está tímido?
Lailson - Eu também falo. A questão é que o Bauer gosta de falar, tem uma cabeça boa, então eu deixo para ele. Fico na minha.
Bauer - Uma pessoa para fazer um ensaio de nu não pode ser tímida.
Lailson - O Bauer é rápido. Tem dia que eu gosto de falar, tem dia que não, não faço questão. É aquela coisa: chega em casa, se tiver alguém que vai lavar a louça, melhor. Eu estou cansado de falar a mesma coisa. Senão vou parecer aquele cara que reclama o tempo todo da vida. Quando vi o Bauer com todo esse tesão, deixei para ele falar. Me cansa falar sobre os ensaios com as meninas. Cansa é a estrutura, sempre com pouco dinheiro. E para completar, em muitos casos, a modelo não sabe fazer um olhar sensual e a responsabilidade é sua. Tem de reverter essa história negativa em positiva. É um desgaste emocional. A modelo não sabe a diferença entre sensualidade e vulgaridade. Muitas vezes a gente tem que falar: faz assim com a boca, etc.
Bauer - Eu digo: “B...a, vai lá e faz a pose para ela (gargalhadas). Veja outro dia. Ensaio chiquérrimo, na praia, vai ter helicóptero, a modelo vai descer, vai ter malas Louis Vuitton espalhadas na areia. E também uma lancha. “Mas a gente está sem dinheiro para hospedar o pessoal, Bauer”. Conclusão: não teve helicóptero, lancha e mala Louis Vuitton. Só teve a praia. Falta de realismo. Um helicóptero custa 1.700 reais a hora. Então existe uma distância muito grande do que você vai fazer e quando chega lá.
Lailson - A inspiração vem das revistas estrangeiras. Modelos maravilhosos. Aí começa tudo errado.

 

FHOXSP - Lailson, você nunca teve vontade de fazer um livro de nu?
Lailson - Já, quando comecei a fotografar nu feminino. Com o tempo não consegui resolver na minha cabeça um gancho que juntasse. Pensar em algo que eu gostasse de fotografar e fazer, produzir isso. Primeiro: é caro, custa. Principalmente porque precisa de planejamento, custa tempo de modelo, maquiador, etc., e a capacidade de captura de recursos não existe. Eu não sou bacana, então...
Bauer - Acho que tenho material para cinco livros no mínimo. Já fui atrás, mas tudo é muito caro. Algo em torno de 80 mil reais. Precisa ter gente famosa, como o livro da Madona, vendeu pra c.....o. Eu jamais fiz uma exposição e também nunca tive uma proposta assim.
Lailson - Tenho três livros na gaveta. Um de maquiadores. Fui à Givenchy, Avon, todo mundo babou, e comprou? Daí fiz outro de rodeios. Três anos de trabalho no livro. Depois a Festa do Divino. Livro tem que ter uma dedicação, um gerenciamento comercial, muito mais do que posso oferecer.
Bauer - Quando você é sozinho, você não dá passo. Já vi fotógrafo vendendo carro para fazer exposição. É louco. Neste país ninguém compra foto, livro de fotografia, só fotógrafo é quem compra livro de fotografia. Só ele tem a dignidade de comprar.
Lailson - Ninguém é porcentagem muito pequena.
Bauer - Mil pessoas. Se fizer um livro que custa cem reais vão ter mil pessoas que compram. Não tem como viabilizar. Você vai à casa das pessoas e não vê fotografia pendurada, não vê livro. Segundo Sebastião Salgado, cultura de comprar fotografia no mundo só existe nos Estados Unidos, na França e um pouco no Japão. Ninguém compra para coleção. O fotógrafo querer viver da sua arte, de cunho pessoal, vai passar fome. O Araquém me disse uma vez: “Parece que fiz voto de pobreza, pareço monge”.
Lailson - O empresário vai dar aquele livro de presente (de borboleta, de flor), mas não vai dar de mulher pelada, de homem pelado.
Bauer - Manter estúdio hoje está uma coisa difícil. No ano passado foi bom, até consegui trocar de carro (risos). Olha o que ouvi outro dia: “O fulano da gráfica está fazendo as fotos...”. Outro dia um vendedor de câmera fotográfica me contou que vendeu à vista uma digital por 30 mil reais para o dono de uma fábrica de móveis. Ele perguntou por que queria aquele equipamento. “É porque estou enjoado de contratar fotógrafo”. As pessoas são tão vaidosas que acham que está bom tudo o que fazem, mesmo não sendo da área delas.
Lailson - Quando você fotografava cromo, se não fosse bem fotometrado podia jogar no lixo um ensaio de três dias. Hoje com o digital, aquele cara que não sabia agora pega o trabalho.
Bauer - Isso é a democratização da fotografia.
Lailson - Acho que gente que faz mais de duas coisas, uma hora vai deixar uma área incompetente. Se ele ficar fotografando, uma hora vai precisar contratar alguém para tomar conta da empresa dele.

(Bauer voltando aos tempos iniciais da G Magazine)

Bauer - Na verdade, criei este mercado. Eu preferia que o mercado ficasse no sutil, no suave, na insinuação. Mas aqui no Brasil é tudo explícito.
Lailson - Parece que as pessoas não têm necessidade de se alimentar pela beleza, pela informação, pela cultura. Têm necessidade de se alimentar porque têm fome. Eu compro Caras porque tenho fome de ver a casa de fulano, eu compro revista que aparece a nudez mais explícita porque tenho fome de sexo. Ninguém tem fome de uma foto em preto-e-branco. Quando a gente fala “ninguém” é a massa. A grana que tem no mercado é para saciar sua fome.
Bauer - Uma coisa muito latina, brasileira. Lá fora o objetivo não é a mulher famosa, é a mulher bonita. Lá ela vai para a Playboy e pode ser que vire atriz, que fique famosa.

FHOXSP - Bauer, você continua vendendo ensaios para os Estados Unidos?
Bauer - Estou com dois canais. Fotografando para lá, mesmo com dólar em baixa, acabo ganhando mais. Faço um teste de modelo e eles aprovam, depois mando o ensaio definitivo. No Brasil, depois que você manda o ensaio, você fica muito comprometido com o modelo. Eles te ligam o tempo todo para saber se já saiu.

 
 
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