| As
trajetórias de
Camila
Butcher e Rosely
Nakagawa coincidem
e se cruzam no tempo.
No fim dos anos o do tempo,
principalmente a fotografia
social. Na época
em que é feita
a gente não tem
visão crítica,
mas com o passar do tempo
se vê a importância
da documentação
e se foi bem-feita. A
fotografia social padece
de um mal: é que
hoje tudo fotografa, o
seu o trabalho de Rosely,
hoje requisitado pelos
grandes centros produtores
de fotografia no país.
Na tarde de 20 de fevereiro,
as duas se encontraram
na redação
de FHOXSP com o objetivo
de conversar sobre portfólio.
Acompanhe os principais
trechos.
FHOXSP
- Como vê o trabalho
dos fotógrafos
sociais atualmente?
Rosely
- Conheço menos
agora. Acho que tem uma
coisa superimportante
na fotografia social,
que o mercado discrimina.
Mercado que digo é
não comercial,
é de exposição,
de publicações.
Na verdade, a fotografia
é importante ao
longo do tempo, principalmente
a fotografia social. Na
época em que é
feita a gente não
tem visão crítica,
mas com o passar do tempo
se vê a importância
da documentação
e se foi bem-feita. A
fotografia social padece
de um mal: é que
hoje tudo fotografa, o
seu telefone, o palm,
qualquer camerazinha.
Então é
difícil ver uma
pessoa que organiza um
evento com planejamento,
com um projeto. Hoje todo
mundo se considera um
bom fotógrafo social.
Vamos supor: você
tem um casamento, um aniversário.
Tudo tem uma conexão,
um clima, uma abordagem.
Você precisa ter
um fotógrafo que
se movimente bem. Um que
faz festa de 15 anos que
é diferente de
uma bodas de ouro. É
uma outra visão.
Já fui a festa
em que o fotógrafo
acaba o tempo dizendo
o que tem que fazer. A
festa fica em tografia
é importante ao
longo do tempo, principalmente
a fotografia social. Na
época em que é
feita a gente não
tem visão crítica,
mas com o passar do tempo
se vê a importância
da documentação
e se foi bem-feita. A
fotografia social padece
de um mal: é que
hoje tudo fotografa, o
seu telefone, o palm,
qualquer camerazinha.
Então é
difícil ver uma
pessoa que organiza um
evento com planejamento,
com um projeto. Hoje todo
mundo se considera um
bom fotógrafo social.
Vamos supor: você
tem um casamento, um aniversário.
Tudo tem uma conexão,
um clima, uma abordagem.
Você precisa ter
um fotógrafo que
se movimente bem. Um que
faz festa de 15 anos que
é diferente de
uma bodas de ouro. É
uma outra visão.
Já fui em festa
em que o fotógrafo
acaba o tempo dizendo
o que tem que fazer. A
festa fica em torno de
quem fotografa. Horrível.
Aí quando o fotógrafo
vai embora, então
acabou a festa. Inverte
tudo.
Camila
- Às vezes é
o cliente quem quer isso.
Quer um clima “Caras”.
É muito chato.
Para quem curte a fotografia
mais do que um álbum,
do que um simples registro,
é difícil.
FHOXSP
- É possível
fazer um trabalho autoral
tendo essa exigência
de mercado?
Rosely
- Acho que sempre tem
espaço. Quando
a gente tem vontade de
fazer uma coisa diferente,
a gente luta contra a
maré. A maioria
quer uma coisa padrão.
A maioria em todo lugar
do o mundo é igual,
ou quer ser diferente
igual a todo o mundo.
Para fazer uma coisa personalizada,
é um grupo pequeno.
Não é questão
de grana mas de compreensão,
de ligação
com a fotografia, de história.
FHOXSP
- O que é importante
na montagem de um portfólio?
Rosely
- É difícil
falar porque não
existe uma regra. É
abstrato. O portfólio
é montado para
mostrar a alguém.
É subjetivo. Tem
que mostrar o que você
faz de melhor. No evento
social mostrar a multiplicidade
de resultados diante de
um assunto só.
Que faz um casamento personalizado,
que faz cor, pb, que faz
a noiva no momento mais
relaxado, mais solene.
Se o portfólio
for para agência
de publicidade, é
coisa totalmente diferente.
Agora há coisas
sem escapatória.
A foto nunca pode ser
maior do 24 por 30 porque
você vai levar na
mão e a pessoa
vai ver na mão.
É uma relação
de peso. E não
mais do que 20, 25 fotos.
Se você leva três
caixas, o cara não
vai olhar. E CD pior ainda.
Peço sempre em
papel. Todo encontro de
leitura de portfólio
que participo sempre peço
em papel. Aconselho não
levar em papel brilhante
porque reflete muito e
fica agressivo. E a foto
sempre protegida. Imagine
um café cair...
E uma copiazinha para
deixar uma memória
do seu trabalho para a
pessoa ou aí, sim,
um CD. E principalmente
voltar sempre porque o
seu portfólio muda.
FHOXSP
- Qual o prazo de validade
de um portfólio?
Rosely
- Sugiro que o fotógrafo
renove sempre. Ele pode
ter uma foto para colocar
todo mês. O portfólio
envelhece rápido.
FHOXSP
- O site da Camila (www.camilabutcher.com)
é muito acessado.
Um site funciona bem como
portfólio?
Rosely
- Funciona hoje e é
igualzinho ao portfólio.
Tem que ter pouca coisa,
fácil de aamila
se diferencia pelo envolvimento.
Ela acaba criando uma
abertura na elegância
do trabalho, na apresentação.
É muito personalizado
e ela escolhe um álbum
bonito. Já vi gente
fazendo casamento, nos
momentos de privacidade,
antes da festa, mas acaba
viraa vida daquela pessoa.
É diferente da
publicidade.
FHOXSP
- Rosely, você conhece
bem o trabalho da Camila.
Fale alguma coisa dele.
Rosely
- O trabalho dela é
muito particular dentro
desse universo da fotografia
social. Existem várias
camadas de fotógrafos.
Tem o fotógrafo
que faz tudo, casamento,
qualquer evento social,
festinha de empresa, clube,
e para isso tem empresa
que põe equipamento
na mão de qualquer
pessoa. O equipamento
garante que tudo vai sair
direito. O trabalho tem
uma cara, mas não
uma personalidade. O trabalho
da Camila se diferencia
pelo envolvimento. Ela
acaba criando uma abertura
na elegância do
trabalho, na apresentação.
É muito personalizado
e ela escolhe um álbum
bonito. Já vi gente
fazendo casamento, nos
momentos de privacidade,
antes da festa, mas acaba
virando uma invasão.
Precisa ter cuidado porque
pode virar um “Big
Brother” do casamento.
Pode virar folclórico.
FHOXSP
- Se eu fosse fotógrafa
e mostrasse meu portfólio
à la “Big
Brother” a você,
o que me diria?
Rosely
- Pergunto à pessoa
o que ela quer do trabalho.
Se ela diz: quero escandalizar,
demolir a instituição
do casamento, é
uma coisa.
FHOXSP
- Mas se eu não
tivesse essa idéia,
“tipo assim”...
(risos)
Rosely
- Há duas leituras
de portfólio que
eu faço. A primeira
de avaliação:
eu vejo naquele momento
e não encontro
mais a pessoa. E tem aquela
em que o fotógrafo
me procura, quer desenvolver
um portfólio e
não sabe fazê-lo.
Aí é um
trabalho de meses. Tem
lição de
casa, consulta, leitura
de livro. Gente de todas
as áreas, menos
publicidade porque ela
gira em torno de outra
coisa. O diretor de arte
tem uma relação
objetiva. É uma
coisa mais técnica,
de iluminação.
Minha praia é mais
linguagem. A minha orientação
é mais longa e
de estilo.
A primeira coisa é
melhorar o vocabulário
do fotógrafo. Ele
escreve uma síntese
de seu trabalho. Aí
verá que “tipo
assim” não
funciona (risos). Depois
que ele sabe o que quer
do seu trabalho, articulando
um pensamento, ficará
mais fácil direcioná-lo.
FHOXSP
- Hoje a necessidade de
o fotógrafo de
procurar um profissional
como você é
maior?
Rosely
- Hoje é tão
diferente. No passado
era tudo tão inexistente.
A função
de curador não
existia. As pessoas confundiam
curadoria com pendurar
quadro na parede. Achavam
que eu ajudava a pendurar
foto. Acho que é
mais fácil para
quem está começando
hoje, mas esse fácil
pode deixar a pessoa perdida
porque tudo pode. Hoje
o que faço é
melhor compreendido.
FHOXSP
- Você falou que
a fotografia “bomba”
em Belém. Que outros
eixos do país ela
também acontece?
Rosely
- Fortaleza, Belo Horizonte,
Curitiba, Porto Alegre.
São centros que
produzem muita fotografia.
Engraçado, no Centro-Oeste,
Brasília começa
agora. Tem uma produção
mas você não
a caracteriza muito, além
do fotojornalismo e do
fotojornalismo político.
A Bahia tem fotógrafos
maravilhosos e no Amapá
também.
A gente vai conhecendo.
Belém, por exemplo,
a gente que não
conhece nada deles. Veja
a cultura deles antes
dos portugueses. No auge
do Ciclo da Borracha existiam
68 galerias na cidade!
Galerias internacionais!
A gente é que não
sabe nada, não
tem conexão. A
primeira vez que fui para
lá, em 85, pensei
o que vou encontrar: água
barrenta, então
vou levar material de
preservação
porque o clima é
quente. Chego lá
e o cara só trabalhava
com Kodakchrome porque
era muito mais fácil
comprar na Venezuela do
que em São Paulo.
Desumificador, se você
não tiver, então
trabalha com outra que
não a fotografia.
Fiquei completamente apaixonada
pelo clube de fotografia.
Como eles estão
fora do eixo São
Paulo, são muitos
unidos.
FHOXSP
- É possível
fotógrafo se unir?
Rosely
- Não. Acho que
o artista em geral tem
problema de convivência.
Precisa de um espaço
para criação.
E o fotógrafo não
é diferente. Acho
que os fotógrafos
se relacionam entre si
melhor que os pintores.
Os fotógrafos precisam
de fornecedores. Artista
plástico é
um horror. É difícil.
Rosely
- Camila, uma vez você
falou que queria fazer
mais retrato.
Camila
- Meu portfólio
não é só
retrato, tem animais,
peixes, bota, para mim
tudo parece retrato. Alguns
portfólios têm
um tema muito marcante,
mas meu trabalho não
é assim. Podia
ser retrato do meu meio
ambiente? Inclui até
fotos de festas, as mais
significativas. O que
você acha disso?
Rosely
- Essa diversidade numa
exposição
é legal para mostrar
como você fotografa.
Quando você vai
mostrar um portfólio,
precisa ser mais pontual
porque a pessoa não
está acostumada
com trabalho autoral.
O retrato pode ser feito
independente de qualquer
evento.
Camila
- Meu portfólio
é extremamente
íntimo. São
meus filhos, viagens,
animais de estimação.
Funciona bem.
Rosely
- É feito de detalhes.
Quem faz retrato e é
conhecido como retratista,
quando lhe pedem para
mostrar o portfólio,
mostra projetos diferentes.
Às vezes a gente
conhece a pessoa por aquilo
e se surpreende com o
portfólio. Veja
Scavone, o livro só
de grafiteiros. É
surpreendente. Uma coisa
que a gente percebe quando
olha um livro de fotografia
é a coisa organizada.
Mas isso não existe,
a vida é feita
de pedaços. Depois
que se organiza o material,
parece tudo coerente.
Você, Camila, pensa
em fazer um novo portfólio?
Camila
- Eu não estou
pensando. O fato é
que fotografo sempre as
mesmas coisas. Tenho ainda
dez anos de negativos
para ser ampliados. Agora,
eu não sou como
outros fotógrafos
que têm projetos.
No meu trabalho é
o cotidiano que aparece.
Rosely
- Carlos Moreira tem a
mesma postura sobre o
cotidiano. Nada de grandes
projetos, de se deslocar
para outra cidade.
FHOXSP
- Qual o peso da fotografia
em preto-e-branco no portfólio?
Rosely
- É sempre diferente.
A fotografia em preto-e-branco
é mais abstrata
do que a colorida, porque
a cor sempre faz referência
ao real no portfólio.
Fotógrafo de evento
leva o álbum que
ele já tem. Ele
não tem preocupação
de fazer um portfólio.
FHOXSP
- O que você pensa
dos álbuns digitais?
Rosely
- É um perigo porque
o digital desaparece.
Camila
- Como?
Rosely
- Em todos os sentidos.
Ele tem a memória
no disco, no CD e depois
no papel fotográfico.
Esse papel se deteriora
e o CD esburaca. Então
daqui a um tempo não
terá uma, nem outra.
É o registro além
da família, de
uma época. Com
o negativo, bem ou mal,
se a cópia deteriora
você tem uma base
física. Agora a
pessoa que fica com o
álbum, não
pode voltar para a matriz,
não tem como recuperá-la.
E o fotógrafo não
vai guardar tudo no HD.
Hoje as fotos são
arquivadas em DVD, daqui
a pouco não vai
ser mais assim. Você
não sabe quem está
fotografando, se aquela
pessoa se tornará
pública, importante,
no futuro. É preciso
ter uma cópia preservada.
Trabalho com organização
de arquivos. Se você
não tem a foto,
não tem como documentar.
Fotografia é recuperação
de uma história.
Acho que o álbum
digital é muito
legal, mas tem de preservar
a base para poder voltar.
Veja as páginas
editadas em álbum.
É uma solução
que tem uma agilidade,
é ótima.
Daqui a pouco ninguém
agüenta mais. É
igual a scrapbooking.
É over.
FHOXSP
- O portfólio tem
de ser vendedor?
Rosely
- Quem me procura não
está pensando em
vender. Não posso
fazer nada para isso.
Camila, a maioria dos
fotógrafos sociais
tem a preocupação
de vender e não
de desenvolver um olhar,
não? O negócio
deles é vender,
prestar um serviço.
O que a Camila faz, por
exemplo, pode ser aplicado
à fotografia social.
O que pode ser diferente
é ser um bom fotógrafo
e não fazer só
social. Para fazer um
retrato bacana, por exemplo,
você precisa entrar
no universo da pessoa,
desenvolver um lado pessoal.
Do contrário vai
lá fazer “boneco”.
Em Belém tem uma
coisa interessante. A
menina quando faz 15 anos
sai a foto dela no jornal.
Então elas disputam
o espaço. É
muito mais comum encontrar
lá uma menina de
15 com retrato lindo do
que aqui.
FHOXSP
- As exposições
eram muito apoiadas pelas
âncoras da indústria.
Com o redesenho de mercado,
a participação
delas diminuiu?
Rosely
- Acho que vivem uma grande
revolução.
Essas novas marcas de
produtos de informática
participam de outros projetos
que não a fotografia.
Acho difícil pedir
apoio. Aliás hoje
não se fala mais
em fotografia, mas em
imagem. E por que tem
de se apoiar num espaço
tão micro? Tem
Internet, cinema. Tende
a mudar muito o conceito
de exposição,
do que se tem de imagem
no ar. As novas tecnologias
não precisam de
museu. O espaço
é outro. Não
tem mais galeria quase.
Acredito que mudará
bastante. |