Texto: Regina Sinibaldi
Fotos: Marcelo Célio

 
As trajetórias de Camila Butcher e Rosely Nakagawa coincidem e se cruzam no tempo. No fim dos anos o do tempo, principalmente a fotografia social. Na época em que é feita a gente não tem visão crítica, mas com o passar do tempo se vê a importância da documentação e se foi bem-feita. A fotografia social padece de um mal: é que hoje tudo fotografa, o seu o trabalho de Rosely, hoje requisitado pelos grandes centros produtores de fotografia no país.

Na tarde de 20 de fevereiro, as duas se encontraram na redação de FHOXSP com o objetivo de conversar sobre portfólio. Acompanhe os principais trechos.

FHOXSP - Como vê o trabalho dos fotógrafos sociais atualmente?

Rosely - Conheço menos agora. Acho que tem uma coisa superimportante na fotografia social, que o mercado discrimina. Mercado que digo é não comercial, é de exposição, de publicações. Na verdade, a fotografia é importante ao longo do tempo, principalmente a fotografia social. Na época em que é feita a gente não tem visão crítica, mas com o passar do tempo se vê a importância da documentação e se foi bem-feita. A fotografia social padece de um mal: é que hoje tudo fotografa, o seu telefone, o palm, qualquer camerazinha. Então é difícil ver uma pessoa que organiza um evento com planejamento, com um projeto. Hoje todo mundo se considera um bom fotógrafo social. Vamos supor: você tem um casamento, um aniversário. Tudo tem uma conexão, um clima, uma abordagem. Você precisa ter um fotógrafo que se movimente bem. Um que faz festa de 15 anos que é diferente de uma bodas de ouro. É uma outra visão. Já fui a festa em que o fotógrafo acaba o tempo dizendo o que tem que fazer. A festa fica em tografia é importante ao longo do tempo, principalmente a fotografia social. Na época em que é feita a gente não tem visão crítica, mas com o passar do tempo se vê a importância da documentação e se foi bem-feita. A fotografia social padece de um mal: é que hoje tudo fotografa, o seu telefone, o palm, qualquer camerazinha. Então é difícil ver uma pessoa que organiza um evento com planejamento, com um projeto. Hoje todo mundo se considera um bom fotógrafo social. Vamos supor: você tem um casamento, um aniversário. Tudo tem uma conexão, um clima, uma abordagem. Você precisa ter um fotógrafo que se movimente bem. Um que faz festa de 15 anos que é diferente de uma bodas de ouro. É uma outra visão. Já fui em festa em que o fotógrafo acaba o tempo dizendo o que tem que fazer. A festa fica em torno de quem fotografa. Horrível. Aí quando o fotógrafo vai embora, então acabou a festa. Inverte tudo.

Camila - Às vezes é o cliente quem quer isso. Quer um clima “Caras”. É muito chato. Para quem curte a fotografia mais do que um álbum, do que um simples registro, é difícil.

FHOXSP - É possível fazer um trabalho autoral tendo essa exigência de mercado?

Rosely - Acho que sempre tem espaço. Quando a gente tem vontade de fazer uma coisa diferente, a gente luta contra a maré. A maioria quer uma coisa padrão. A maioria em todo lugar do o mundo é igual, ou quer ser diferente igual a todo o mundo. Para fazer uma coisa personalizada, é um grupo pequeno. Não é questão de grana mas de compreensão, de ligação com a fotografia, de história.

FHOXSP - O que é importante na montagem de um portfólio?

Rosely - É difícil falar porque não existe uma regra. É abstrato. O portfólio é montado para mostrar a alguém. É subjetivo. Tem que mostrar o que você faz de melhor. No evento social mostrar a multiplicidade de resultados diante de um assunto só. Que faz um casamento personalizado, que faz cor, pb, que faz a noiva no momento mais relaxado, mais solene. Se o portfólio for para agência de publicidade, é coisa totalmente diferente. Agora há coisas sem escapatória. A foto nunca pode ser maior do 24 por 30 porque você vai levar na mão e a pessoa vai ver na mão. É uma relação de peso. E não mais do que 20, 25 fotos. Se você leva três caixas, o cara não vai olhar. E CD pior ainda. Peço sempre em papel. Todo encontro de leitura de portfólio que participo sempre peço em papel. Aconselho não levar em papel brilhante porque reflete muito e fica agressivo. E a foto sempre protegida. Imagine um café cair... E uma copiazinha para deixar uma memória do seu trabalho para a pessoa ou aí, sim, um CD. E principalmente voltar sempre porque o seu portfólio muda.

FHOXSP - Qual o prazo de validade de um portfólio?

Rosely - Sugiro que o fotógrafo renove sempre. Ele pode ter uma foto para colocar todo mês. O portfólio envelhece rápido.

FHOXSP - O site da Camila (www.camilabutcher.com) é muito acessado. Um site funciona bem como portfólio?

Rosely - Funciona hoje e é igualzinho ao portfólio. Tem que ter pouca coisa, fácil de aamila se diferencia pelo envolvimento. Ela acaba criando uma abertura na elegância do trabalho, na apresentação. É muito personalizado e ela escolhe um álbum bonito. Já vi gente fazendo casamento, nos momentos de privacidade, antes da festa, mas acaba viraa vida daquela pessoa. É diferente da publicidade.

FHOXSP - Rosely, você conhece bem o trabalho da Camila. Fale alguma coisa dele.

Rosely - O trabalho dela é muito particular dentro desse universo da fotografia social. Existem várias camadas de fotógrafos. Tem o fotógrafo que faz tudo, casamento, qualquer evento social, festinha de empresa, clube, e para isso tem empresa que põe equipamento na mão de qualquer pessoa. O equipamento garante que tudo vai sair direito. O trabalho tem uma cara, mas não uma personalidade. O trabalho da Camila se diferencia pelo envolvimento. Ela acaba criando uma abertura na elegância do trabalho, na apresentação. É muito personalizado e ela escolhe um álbum bonito. Já vi gente fazendo casamento, nos momentos de privacidade, antes da festa, mas acaba virando uma invasão. Precisa ter cuidado porque pode virar um “Big Brother” do casamento. Pode virar folclórico.

FHOXSP - Se eu fosse fotógrafa e mostrasse meu portfólio à la “Big Brother” a você, o que me diria?

Rosely - Pergunto à pessoa o que ela quer do trabalho. Se ela diz: quero escandalizar, demolir a instituição do casamento, é uma coisa.

FHOXSP - Mas se eu não tivesse essa idéia, “tipo assim”... (risos)

Rosely - Há duas leituras de portfólio que eu faço. A primeira de avaliação: eu vejo naquele momento e não encontro mais a pessoa. E tem aquela em que o fotógrafo me procura, quer desenvolver um portfólio e não sabe fazê-lo. Aí é um trabalho de meses. Tem lição de casa, consulta, leitura de livro. Gente de todas as áreas, menos publicidade porque ela gira em torno de outra coisa. O diretor de arte tem uma relação objetiva. É uma coisa mais técnica, de iluminação. Minha praia é mais linguagem. A minha orientação é mais longa e de estilo.
A primeira coisa é melhorar o vocabulário do fotógrafo. Ele escreve uma síntese de seu trabalho. Aí verá que “tipo assim” não funciona (risos). Depois que ele sabe o que quer do seu trabalho, articulando um pensamento, ficará mais fácil direcioná-lo.

FHOXSP - Hoje a necessidade de o fotógrafo de procurar um profissional como você é maior?

Rosely - Hoje é tão diferente. No passado era tudo tão inexistente. A função de curador não existia. As pessoas confundiam curadoria com pendurar quadro na parede. Achavam que eu ajudava a pendurar foto. Acho que é mais fácil para quem está começando hoje, mas esse fácil pode deixar a pessoa perdida porque tudo pode. Hoje o que faço é melhor compreendido.

FHOXSP - Você falou que a fotografia “bomba” em Belém. Que outros eixos do país ela também acontece?

Rosely - Fortaleza, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre. São centros que produzem muita fotografia. Engraçado, no Centro-Oeste, Brasília começa agora. Tem uma produção mas você não a caracteriza muito, além do fotojornalismo e do fotojornalismo político. A Bahia tem fotógrafos maravilhosos e no Amapá também.
A gente vai conhecendo. Belém, por exemplo, a gente que não conhece nada deles. Veja a cultura deles antes dos portugueses. No auge do Ciclo da Borracha existiam 68 galerias na cidade! Galerias internacionais! A gente é que não sabe nada, não tem conexão. A primeira vez que fui para lá, em 85, pensei o que vou encontrar: água barrenta, então vou levar material de preservação porque o clima é quente. Chego lá e o cara só trabalhava com Kodakchrome porque era muito mais fácil comprar na Venezuela do que em São Paulo. Desumificador, se você não tiver, então trabalha com outra que não a fotografia. Fiquei completamente apaixonada pelo clube de fotografia. Como eles estão fora do eixo São Paulo, são muitos unidos.

FHOXSP - É possível fotógrafo se unir?

Rosely - Não. Acho que o artista em geral tem problema de convivência. Precisa de um espaço para criação. E o fotógrafo não é diferente. Acho que os fotógrafos se relacionam entre si melhor que os pintores. Os fotógrafos precisam de fornecedores. Artista plástico é um horror. É difícil.

Rosely - Camila, uma vez você falou que queria fazer mais retrato.

Camila - Meu portfólio não é só retrato, tem animais, peixes, bota, para mim tudo parece retrato. Alguns portfólios têm um tema muito marcante, mas meu trabalho não é assim. Podia ser retrato do meu meio ambiente? Inclui até fotos de festas, as mais significativas. O que você acha disso?

Rosely - Essa diversidade numa exposição é legal para mostrar como você fotografa. Quando você vai mostrar um portfólio, precisa ser mais pontual porque a pessoa não está acostumada com trabalho autoral. O retrato pode ser feito independente de qualquer evento.

Camila - Meu portfólio é extremamente íntimo. São meus filhos, viagens, animais de estimação. Funciona bem.

Rosely - É feito de detalhes. Quem faz retrato e é conhecido como retratista, quando lhe pedem para mostrar o portfólio, mostra projetos diferentes. Às vezes a gente conhece a pessoa por aquilo e se surpreende com o portfólio. Veja Scavone, o livro só de grafiteiros. É surpreendente. Uma coisa que a gente percebe quando olha um livro de fotografia é a coisa organizada. Mas isso não existe, a vida é feita de pedaços. Depois que se organiza o material, parece tudo coerente. Você, Camila, pensa em fazer um novo portfólio?

Camila - Eu não estou pensando. O fato é que fotografo sempre as mesmas coisas. Tenho ainda dez anos de negativos para ser ampliados. Agora, eu não sou como outros fotógrafos que têm projetos. No meu trabalho é o cotidiano que aparece.

Rosely - Carlos Moreira tem a mesma postura sobre o cotidiano. Nada de grandes projetos, de se deslocar para outra cidade.

FHOXSP - Qual o peso da fotografia em preto-e-branco no portfólio?

Rosely - É sempre diferente. A fotografia em preto-e-branco é mais abstrata do que a colorida, porque a cor sempre faz referência ao real no portfólio. Fotógrafo de evento leva o álbum que ele já tem. Ele não tem preocupação de fazer um portfólio.

FHOXSP - O que você pensa dos álbuns digitais?

Rosely - É um perigo porque o digital desaparece.

Camila - Como?

Rosely - Em todos os sentidos. Ele tem a memória no disco, no CD e depois no papel fotográfico. Esse papel se deteriora e o CD esburaca. Então daqui a um tempo não terá uma, nem outra. É o registro além da família, de uma época. Com o negativo, bem ou mal, se a cópia deteriora você tem uma base física. Agora a pessoa que fica com o álbum, não pode voltar para a matriz, não tem como recuperá-la. E o fotógrafo não vai guardar tudo no HD. Hoje as fotos são arquivadas em DVD, daqui a pouco não vai ser mais assim. Você não sabe quem está fotografando, se aquela pessoa se tornará pública, importante, no futuro. É preciso ter uma cópia preservada. Trabalho com organização de arquivos. Se você não tem a foto, não tem como documentar. Fotografia é recuperação de uma história. Acho que o álbum digital é muito legal, mas tem de preservar a base para poder voltar. Veja as páginas editadas em álbum. É uma solução que tem uma agilidade, é ótima. Daqui a pouco ninguém agüenta mais. É igual a scrapbooking. É over.

FHOXSP - O portfólio tem de ser vendedor?

Rosely - Quem me procura não está pensando em vender. Não posso fazer nada para isso. Camila, a maioria dos fotógrafos sociais tem a preocupação de vender e não de desenvolver um olhar, não? O negócio deles é vender, prestar um serviço. O que a Camila faz, por exemplo, pode ser aplicado à fotografia social. O que pode ser diferente é ser um bom fotógrafo e não fazer só social. Para fazer um retrato bacana, por exemplo, você precisa entrar no universo da pessoa, desenvolver um lado pessoal. Do contrário vai lá fazer “boneco”. Em Belém tem uma coisa interessante. A menina quando faz 15 anos sai a foto dela no jornal. Então elas disputam o espaço. É muito mais comum encontrar lá uma menina de 15 com retrato lindo do que aqui.

FHOXSP - As exposições eram muito apoiadas pelas âncoras da indústria. Com o redesenho de mercado, a participação delas diminuiu?

Rosely - Acho que vivem uma grande revolução. Essas novas marcas de produtos de informática participam de outros projetos que não a fotografia. Acho difícil pedir apoio. Aliás hoje não se fala mais em fotografia, mas em imagem. E por que tem de se apoiar num espaço tão micro? Tem Internet, cinema. Tende a mudar muito o conceito de exposição, do que se tem de imagem no ar. As novas tecnologias não precisam de museu. O espaço é outro. Não tem mais galeria quase. Acredito que mudará bastante.

 
 
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