Texto: Regina Sinibaldi
Fotos: Mozart Mesquita

 
Flavia Fusco e Beto Riginik encontraram-se na FHOXSP para falar sobre fixação da imagem. Quem pensou em processo químico, errou. O assunto em pauta é o trabalho de uma assessoria de imprensa, tão indispensável hoje em dia principalmente num mercado altamente concorrencial como o da fotografia. Entre os clientes de Flavia Fusco, os fotógrafos têm boa representatividade. Beto Riginik – que em paralelo à fotografia divide a administração dos bares paulistanos 6:01, na Vila Olímpia, e Ao Vivo, em Moema – sabe o que significa a presença de uma assessoria de imprensa num bar, mas ainda não experimentou em sua carreira de fotógrafo. Promete para breve contratar uma, ele que produz fotos para arquitetura, moda e publicidade. Acompanhe trechos da conversa a seguir.

Flavia - Fotógrafos geralmente esquecem de divulgar o seu trabalho. Estão focados na arte, assim como artistas plásticos.

Riginik - A gente tem problema sério: falta de gerenciamento. Pessoas que trabalham com criação não têm um lado prático, business. Falo pela maioria dos fotógrafos e eu também tenho dificuldade.

Flavia - É muito comum quatro dias antes da exposição o fotógrafo me procurar pedindo divulgação. Não tem como.

FHOXSP - É acaso o fotógrafo que estoura no mercado sem assessoria?

Flavia - Antigamente sim. Fotógrafos são tímidos, difícil aparecer um com ego exacerbado, pelo menos os que conheço. Hoje em dia sugiro assessoria. Fazer um trabalho consistente que vai pipocando aqui, ali. Mas tem gente que não está preocupada, ou porque não quer, não tem desejo, ou porque tem tanto trabalho ligado a agência que não tem tempo.

Riginik - Encontrei recentemente um fotógrafo que há nove anos fazia fusão de imagens, etc., e tem um portfólio excelente. Mas hoje parou no tempo, não investiu em equipamento. Veio pedir trabalho. Fiquei assustado. Assessoria de imprensa é fundamental, vejo nos dois bares, e não é tão onerosa como a publicidade convencional.

FHOXSP - Mas você, como fotógrafo, não recorre a assessoria.

Riginik - Mas pretendo fazer.

Flavia - Acho interessante o fotógrafo recorrer a uma quando faz exposição, lança livro, para que seu nome fique em evidência e também construir uma trajetória.

 
 

Riginik - Hoje em dia é complicado demais ser fotógrafo: você trabalha, trabalha...

Flavia - Mas mudou para todo mundo.

FHOXSP - Antigamente rolava mais dinheiro no mercado.

Riginik - Um amigo que trabalhou com tecnologia a vida toda, fala da mudança da tecnologia, da propaganda convencional. Isso já era, hoje existem outras ferramentas mais apropriadas.

FHOXSP - Voltando para o caso de um fotógrafo bom que, de repente, fica sem trabalho. Em que uma assessoria ajudaria?

Flavia - A assessoria deve ser contratada quando tem um tema. É mais legal contratar para divulgar do que por meio dela atrair um trabalho.

Riginik - Mas “Tostines” vende mais porque está sempre fresquinho ou porque é fresquinho vende sempre mais?

Flavia - É mais interessante divulgar o que está fazendo. É como médico. É legal divulgar que tem o laser do momento do que dizer “sou médico”. Veja o ator. Se ele não está na mídia, é difícil encaixá-lo. Às vezes você sugere uma pauta, e o jornalista pergunta se ele está fazendo alguma coisa na tevê ou no teatro.

Riginik - Você fala então de um trabalho passivo.

Flavia– É. Vejo que para publicidade a assessoria de imprensa não funciona muito, mas para um serviço, sim, como a fotografia de casamento.

FHOXSP - O que mais aparece para você na fotografia?

Flavia - Exposição e lançamento de livro. Tem fotógrafo que fala: “Vamos fazer um trabalho constante”, mas não consegue.

Riginik - Não pode gerar pauta para eles?

Flavia - Depende. O mercado de cultura é “Ilustrada”, “Caderno 2”, Bravo. Não vejo a assessoria gerando trabalho, mas construindo uma imagem.

Riginik - Você acaba caindo na pessoa física. Imagine um fotógrafo que caiu e machucou. Gerou notícia. Isso não influencia?

Flavia - Vamos supor que você foi chamado para trabalhar no exterior. Aí é interessante, porque tem algo a dizer. No geral é trabalho de galeria, foto. Sempre que sou contratada, pergunto quem na empresa vai cuidar de mim. O chef de cozinha, o artista plástico, o fotógrafo, não vão ter tempo. É importante que tenha uma pessoa, que trabalhe com ele, que faça essa união. Quem tem uma assessoria precisa ter alguém que cuide dela, alimentando sempre com informações. Isso não é só na área da fotografia, é geral. Tem que mandar esses fatos. Comparo meu trabalho com academia de ginástica: você precisa ir para ter resultado.

FHOXSP - Exposição é uma boa ferramenta? Tem alguma época do ano que gera mais resultados?

Riginik - Posso responder? Acho exposição fundamental porque você mostra um trabalho pessoal, faz o que quer e não o que te pagam. É dar a cara para bater.

Flavia - Tem uma época do ano que é mais difícil de a gente encaixar. De setembro a dezembro é corrido. Janeiro é mais fácil.

FHOXSP - Mas aí não tem gente na cidade para visitá-la.

Riginik - Ter muita gente para ver ou não, é irrisório. Porque geralmente as pessoas que querem, vão dar resultado, ficam sabendo. Não é uma exposição do Picasso, que enche o museu.

Flavia - Dezembro é complicado. Você liga e o pessoal fala: “Já fechei”. Veja o programa do Jô.

FHOXSP - E como se mede resultado?

Flavia - Supercomplicado. Um fotógrafo que expõe na Pinacoteca, por exemplo, tem um retorno esperado. Se ele está fazendo um trabalho com uma atriz em evidência, é outro.

FHOXSP - Você recusa cliente?

Flavia - Geralmente os que chegam em cima da hora. Você vai se estressar e não ter resultado satisfatório. Acontece de tudo na nossa área. De cara, falo: pode acontecer isso, aquilo. Já aconteceu de eu ter um cliente que ia ser capa da “Ilustrada”. Mas no dia houve mortes de pessoas famosas no Brasil e no mundo coincidentemente, e eles derrubaram a pauta. Fazer o quê? A sorte é que o cliente entendeu. Há outros que não entendem, por isso não gosto de falar com antecedência. Hoje em dia é assim. Tinha uma época em que se abria uma exposição que rendia sete matérias no mesmo dia. Agora não há mais espaço. Os cadernos de cultura diminuíram.

FHOXSP - E a Internet?

Flavia - É bem legal. Acho que é outra opção. Tem de atuar em todas áreas: tevê, rádio.

Riginik - Você sugere ao cliente planejamento?

Flavia - Acho bacana. O interessante é saber que aquilo pode mudar.

Riginik - Você está me dizendo que seu trabalho é mais passivo.

Flavia - Em termos. Na área de vocês (publicidade), sim.

Riginik - Se você pegasse um bar...

Flavia - Se for um bar, você tem um calendário. Olha, está chegando a Copa do Mundo, então você pergunta se vai ter telão, uma promoção.

Riginik - Se depender da gente, não vai haver notícia porque a gente esquece de informar.

Flavia - No caso do bar você pode ser mais ativo. No caso de fotógrafos, artistas plásticos, atores, é preciso estar em algum projeto.

FHOXSP - Fotógrafos têm aparecido muito em novelas, veja “Belíssima”.

Flavia - Interessante.

Riginik - Fotografia não é encarada como profissão, mas hobby. Existe um certo preconceito. Eu vivi, quando disse a meu pai o que ia ser. “Fotógrafo?”, ele me disse. Tem muito fotógrafo no mercado e a tecnologia digital achatou muito mais, é difícil concorrer. É a mesma coisa que pegar uma curva entre o branco e o preto e diminuí-la no Photoshop. Hoje em dia ser fotógrafo e não ser fotógrafo é muito perto.

Flavia - Já vi produto ser destruído por causa de uma foto ruim. A gente orienta o cliente, porque muitas vezes ele quer economia na foto. Acho que a profissão fotógrafo tem muito glamour: este, superfotógrafo, o outro, bom fotógrafo...

Riginik - Você não acha que a diferença não está na mídia, acho que não está na técnica.

Flavia - Acho que parte está no histórico, na mídia.

FHOXSP - Você já lidou com gerenciamento de crise?

Flavia - Não, nunca. Estou tentando me lembrar de uma.

Riginik - Bom.

Flavia - Trabalho de maneira artesanal, num contato direto com o cliente e gosto de ter controle. Amo meus clientes e os considero parceiros. Os fotógrafos que conheço não têm ego exacerbado, querem fazer o trabalho deles. São tímidos.

Riginik - Acho complicado porque todos têm. Não é que os fotógrafos não querem aparecer, talvez não saibam lidar com isso. Quando mostro meu portfólio, as pessoas dizem “bacana”, mas para mim aquilo é rotina.

 
 

FHOXSP - Você tem clientes na fotografia fora de São Paulo?

Flavia - Não, não tenho.

FHOXSP - Atrapalha um fotógrafo não querer exposição numa revista?

Flavia - Atrapalha sim, mas respeito a linha de trabalho dele. Por isso gosto de ser parceira para entendê-lo.

Riginik - Mas tem muita gente que não tem conteúdo e aparece.

Flavia - Isso acontece em todas as áreas, mas também é admirável quando a pessoa consegue inventar uma farsa por muito tempo.

Riginik - Jornalista gosta mais do nome do fotógrafo?

Flavia - O importante é ter um gancho, o tema do que se divulga e prazo. É um todo. O assunto, o prazo, o diferencial.

Riginik - Tenho um projeto que será exposto e que poderia ter sido antes, justamente por falta de planejamento.

Flavia - Quando você chega antes, dá para fazer mais coisas. É preciso planejamento. O calendário montado pode ser mudado, mas é necessário o gancho para gerar notícia. Se você perde o momento...

FHOXSP - Você tem algum cliente fotógrafo de casamento?

Flavia - Não tenho. Mas conheço alguns, como a Camila Butcher. Indiquei seu nome até para gente que ia casar e ela fez o casamento.

Riginik - As pessoas falam em talento. Desmistifico de maneira muito simples, de acordo com nossos sentidos. Pessoas visuais são diferentes das auditivas e das cinestésicas. Os sentidos nada mais são do que veículo entre o mundo externo e o cérebro. Aprendi algo muito legal com Cláudio Feijó. Ele dizia: “Não quero saber o que tem na foto, mas o que te levou a apertar o botão naquele momento”. Quem mexe com criação precisa mais de repertório do que outra coisa. Técnica qualquer um aprende, equipamento qualquer um pode ter, mas repertório é seu currículo, é aquela coisa que você tem desde que era bebê, estava no colo. É uma maneira simplista de eu ver, mas racional. Por isso sou meio cético com o glamour da fotografia.

FHOXSP - No passado, o assessor de imprensa era confundido com agência de publicidade.

Flavia - Com o tempo as pessoas vão entendendo e se não, a gente explica. Na publicidade, ele contrata e sai exatamente como ele quer. Na assessoria de imprensa, não. Às vezes você manda um produto maravilhoso e sai no jornal com mais dezoito.

Riginik - A assessoria faz parte do todo. Para cada tipo de produto existe uma ação.

Flavia - A assessoria tem um problema. Quando você inclui seu cliente naquele veículo, ele não vai aparecer nomês seguinte. Se quiser, tem de lançar algo. A diferença é que dá credibilidade.

 
 
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