Texto: Regina Sinibaldi
Fotos: Marcelo Célio

 
Durante o 3º Congresso Paulista de Foto e Imagem, que aconteceu em abril, FHOXSP realizou mais um encontro. Desta vez, Yara Kerstin Richter, gerente do Núcleo de Artes Visuais do Itaú Cultural, conversou com o fotógrafo Iatã Cannabrava, conhecido também por coordenar diversos projetos culturais na cidade e ministrar cursos sobre projetos culturais. Assunto? O financiamento das artes, especialmente as artes visuais onde se inclui a fotografia.

Do lado do Itaú Cultural, a instituição vem há 19 anos divulgando a cultura brasileira no país e no exterior. Entre suas realizações, o Programa Rumos Itaú Cultural. Criado em 1997, tem o propósito de identificar iniciativas nas artes – visual, musical, interativa, audiovisual, literária e dança – e no pensamento – pesquisa acadêmica, educação e jornalismo.

Leia trechos do bate-papo a seguir.

FHOXSP - Quais os critérios adotados pelo Itaú Cultural para desenvolver as artes visuais no país?

Yara - As empresas têm uma linha própria de atuação. Já o Ministério da Cultura deveria fomentar mais. No Itaú o objetivo é fomentar os jovens artistas e emergentes. Na fotografia, o “Rumos” mapeou todo o Brasil.

FHOXSP - Mas o Itaú Cultural tem iniciativas envolvendo nomes consagrados da fotografia.

Yara - São parcerias e são esporádicas.

FHOXSP - Iatã, como anda a participação das empresas, do governo nos projetos culturais?

Iatã - É importante saber o que acontece no país em termos de leis de incentivo à cultura. Você tem várias formas de financiamento. A principal é o mercado. Mas no país não há um mercado constituído para a compra de fotografias, temos três ou quatro colecionadores e ponto final. Segundo meio de financiamento: o mecenato tradicional. Também aí no Brasil estamos em baixa. A cultura norte-americana vive disso, veja os museus Guggenheim e ICP (International Center of Photography). Depois existe o patrocínio: a empresa faz marketing cultural. Então a empresa paga cultura. Quarto: poder público direta ou indiretamente. E, por último, lei de incentivo à cultura. E aí, a minha crítica: patrocínio, lei de incentivo e poder público viraram uma coisa só, que não deveria ser. No fundo, a empresa faz marketing cultural com o dinheiro público. De educativo não tem nada porque o dia que acabar a lei, acaba o incentivo. Não é o caso do Itaú Cultural. Veja a Lei Rouanet que tem dois artigos básicos. Um deles prevê 100% de isenção, e no outro o empresário põe o dinheiro sendo que 40% dele podem entrar no Imposto de Renda a deduzir. Meu questionamento às instituições é por que não passaram a atuar com verba própria depois de tantos anos de Lei Rouanet, abrindo outro flanco com o dinheiro público. O incentivo é também para educar o empresariado a fazer cultura. A empresa deixa de usar o incentivo fiscal porque acha interessante contribuir nesse esquema, continua fazendo cultura e esse dinheiro volta como imposto pago. Por que isso acontece? Inúmeras razões, mas uma delas é porque o Estado é inoperante na maioria das vezes, não sabe gastar o seu dinheiro.

Yara - O problema também está no Ministério da Cultura que não consegue administrar a verba e jogou a responsabilidade para outros.

Iatã - Não seria o caso de uma profunda reflexão no meio empresarial? O dia que acabar a Lei Roaunet voltaremos à estaca zero. O tal do incentivo beneficiou alguns. No caso do cinema, a coisa é brutal. O incentivo chega a 125% porque se aplicam os dois artigos (100% de isenção e 40% de dedução no IR). É incentivo demais. Isso tudo me preocupa. Todos os institutos têm suas políticas próprias e os principais desenvolvem um trabalho sério. Veja o Instituto Moreira Salles. Devemos a ele o acervo fotográfico brasileiro. Inclusive quero deixar uma pergunta no ar: se o banco for vendido a um estrangeiro, como fica o acervo?

Yara - Acredito que o acervo do instituto não seja do banco. O que pertence ao instituto não é do banco. A gente tem o exemplo real do Banco Santos. O acervo foi para um museu (o MAC, Museu de Arte Contemporânea).

Iatã - Do mesmo jeito que isso acontece com os acervos, acontece com a produção cultural. Por exemplo, o Itaú tem um foco. E o pessoal que não está neste foco, como fica?

Yara - Principalmente a arte experimental, é difícil. Em outros países ela é financiada pelos governos.

FHOXSP - Orçamentos do governo destinados a políticas sociais não “comem” verbas da cultura?

Yara - Sempre haverá programas sociais e não é por isso que se pode esquecer a cultura e colocá-la de lado. Acho que precisa de ajustes, a lei, o ministério, o interesse comum. Acho que a cultura não pode ficar em segundo plano, ela tem de caminhar junto. Faz parte de todo o processo do desenvolvimento, da educação, e deveria ser mais acessível às periferias. Que não será prioridade do governo, concordo.

Iatã - Sempre lembro uma frase de Darcy Ribeiro: “O Brasil precisa ser passado a limpo”. Muito se brigou para separar cultura de educação. No governo francês, por exemplo, quem financia a cultura são as entidades ligadas à indústria. Por quê? Eles sabem muito bem que vender a cultura francesa significa Peugeot, Renault e todas as outras marcas. Agregam valor. O Brasil precisa de um choque. A cultura é o mais rápido instrumento de transformação em nossas mãos. Com ela você gera emprego, perspectiva, eleva a auto-estima. Vamos supor que o orçamento da cultura vá continuar o mesmo. O que podemos fazer? Incentivar todos os setores da Nação a novos projetos, novos programas, fugindo da idéia de marketing cultural. O benefício não é mais direto, mas saber que o meu bisneto vai sair na rua e que não será seqüestrado ou morto. Nessa visão, está comprovado que projetos culturais diminuem a violência a longo prazo. Todo mundo tem que pensar o que pode fazer. Nos meus workshops dou bolsas de estudo, faço trabalhos em comunidades carentes. A capacidade de expressão cultural do povo brasileiro é brutal, é só dar apoio.

FHOXSP - Do pessoal emergente na fotografia, revelado por “Rumos”, já tem algum fazendo carreira?

Yara - A idéia é fazer um levantamento, uma longa pesquisa. Foi mapeado o Brasil todo. A idéia era sair um pouco do eixo Rio–São Paulo. Foi feito um trabalho anterior nas curadorias, instituições. A curadoria do projeto visitou ateliês, promoveu palestras. No Nordeste, por exemplo, muitos artistas não têm vínculo nenhum com o Sul, mas com a Europa. Eles viajam muito. Belém, também. Uma situação muito peculiar, vários brasis.

Iatã - Qual o critério do “Rumos”?

Yara - É incentivar a produção em todo o Brasil. Esse levantamento estatístico, o trabalho com as instituições, não tem um resultado imediato. Ele realmente mapeia o Brasil.

Iatã - Meus alunos perguntam: “Quem a gente procura?”. No cinema, sei a resposta mas na fotografia, não. É o grande drama. Tem algum edital?

Yara - Para fotografia especificamente não tem.

Iatã - Tem a Caixa Econômica, Os Correios, para expor.

FHOXSP - Os concursos são um incentivo?

Iatã - Isso é uma polêmica. Os concursos são algo em desuso completo, porque você não premia processo, mas resultado.

Yara - E no “Rumos” tem processo. Não é uma obra, mas o portfólio. O participante é avaliado pelos processos.

Iatã - Vejo workshops, oficinas, cursos, como uma fórmula mais eficaz a essa busca desenfreada à universidade; tudo que envolve formação com facilidade.

 
 
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